segunda-feira, 12 de setembro de 2011

História sobre Joana Gramata ou Joana Maluca - "Ciúmes da Velha"


in Revista Universal Lisbonense,
dir. de Sebastião José Ribeiro de Sá, 1853,
p.263-264.
   A figura de Joana Gramata, mulher importante para o povoamento e implementação do culto religioso na Gafanha da Encarnação, já no ano de 1853 foi notícia na Imprensa Nacional:
   Publicamos essa mesma história para melhor conhecimento desta figura e sua acção nos areais da Gafanha, diga-se, digna de uma cena de filme ou de novela.
   Talvez esta seja a verdadeira razão do cognome de 'maluca' pelo qual ficou conhecida?

"Ciúmes da Velha" - a ti Joana Gramata

— Era no recinto de uma capelinha que a tia Gramata edificara em louvor de Nossa Senhora.
   Um padre rubicundo e de má fama, mais propenso ás adorações de Bacho que ás rezas do Breviário, corria pelo sermão adiante todos os pecados mortais, fazendo sobre cada um deles ruidosas mais que evangélicas exortações. Chamavam-lhe por ali o padre Borracha, nome, que os fregueses lhe deram em comemoração de uma alentada borracha sua fiel companheira em todas as romarias. Quando subiu para o púlpito, já na sacristia se tinha prevenido contra as falhas da memória, com largas libações da supradita borracha, que lhe coraram o rosto de um rubro beterraba. Era sublime, de asqueroso e de ridículo.
     A tia Joana da Gramata, íncola primeira dos areais da Gafanha, presidia, junto do altar-mór, á festa da sua capela. A tia Joana é uma velha rebarbativa, alta, gorda, robusta apesar dos seus setenta e tantos anos, e casada pela terceira vez com um mocetão apessoado e bem parecido, que a preferira a muitas moças que o requestavam engodado com o lucro das muitas terras que a velha possuía. Dele não teve filhos; nem parece provável que haja de os ter, atenta a sua avançada idade: zela-o contudo pelo mesmo teor de ciúmes abrasados com que foi encampando para melhor vida os seus dois primeiros maridos. Agora estava ele de pé, ora com os olhos fixos no padre, quando se percebia que a tia Joana o espreitava, logo com eles acesos no incêndio de dois outros olhos vivos e espertos de uma bela rapariga, que como de propósito o estava incitando a perder as reflexões do sermão, e a perturbar a paz doméstica da pobre tia Joana.


Tricana em dia de festa, aguarela s/ papel
Alberto Sousa, 1935
    A moça estava vestida com um colete de veludo encarnado, bordado a fio de oiro, que lhe apertava a cintura estreita e delicada, e por baixo do qual saíam as mangas da camisa a abotoar no punho, alvas como o peito de uma falcoeira. Da cinta pendia uma saia de serguilha preta, apanhada em estreitas pregas, que lhe descia apenas até ao artelho, deixando ver uns pés mimosos e estatuários, apesar do costume que tem todas as mulheres destes sítios de andarem descalças. Dos ombros caía-lhe uma capa de pano azul escuro, com bandas de cetim azul, e cortada gentilmente á moda das antigas togas. Todo este vestuário se aproxima e assemelha ao das mulheres do campo italianas, de cuja origem, segundo a tradição de todos estes lugares, elas parecem proceder. Rosto formoso, alvos dentes, belas mãos, ainda que do sol crestadas e enegrecidas, faziam desta moça uma verdadeira perfeição.
    Mal o padre acabava o seu breve sermão, que nenhum dos dois ouvira, o mancebo fez-lhe um sinal imperceptível para todos, menos para a tia Joana, e saíram da igreja. A moça foi-se direita ao seu palheiro, e tomando uma viola, voltou repentinamente pr'á eira, em cuja beira se assentou. Correu a mão pelas cordas e preludiou entre dentes uma canção melancólica, cujas trovas populares denunciavam o estado convulso e aflito de sua alma. O mancebo apenas ouvira os primeiros sons daquela agreste melodia, deixou seus amigos com quem fingia entreter-se, e voltou para a eira, sentando-se junto da formosa cantora. Todos fizeram roda. Ela não tinha igual em deitar trovas, ou dançar as danças destes sítios dentro em seis léguas em redor: ele era de todos os improvisadores o mais querido e afamado.
Até o zabumba e o pífaro da festa se calaram, eles que, desde a alvorada, nem para comer tinham descansado. A rapariga pôs os olhos no céu e arrasarem-se-lhe de lágrimas, ele levou a mão a um lenço de linho alvíssimo, e diante de todos lhas limpou com amor e sem afectação. Depois começou o desafio. Agora é que era ouvi-los. Primeiro vieram brinquedos infantis, em que ambos se entrelinham, ele apanhando nas bordas do mar as conchinhas e os seixos, para lhe trazer, ela indo ao pomar, e guardando-lhe os primeiros frutos de todas as estações. Depois os anos, e com eles as urgências, as tristezas, as grandes tribulações. Ia sozinha sem os pais a guardar de inverno a casa, em quanto ele acompanhava o pai para essas terras tão longe onde costumavam pescar. O Verão era o Paraíso. Com as primeiras flores, e as primeiras vozes do céu, chegava o seu amante, e as tristezas convertiam-se em alegrias; as tribulações em danças doidejantes pelas romarias. E todos os anos, era assim. A sorte, separando-os, parecia já preludiar o seu futuro destino.
Enfim o moço orçava já pelos dezoito anos, e ela pelos dezasseis; o amor cada dia brotava novos ardores. 
O pai dele, velho pescador, encanecido, e endurecido nas rijas lutas do mar, não sabia nem podia compreender, o que fosse um amor, nascido no berço de ambos, e que o hábito de se verem sempre juntos tinha feito robustecer e firmar. Quando lhe pareceu declarou ao filho que era preciso casar, e que já lhe tinha arranjado esposa. O moço inclinou a cabeça e pediu um ano de espera. Quem sabe se nesse momento lhe passou pela ideia o pensamento de que o pai já ia adiantado em anos, e talvez a morte o libertasse de obedecer ás suas ordens peremptórias? Ela quando o soube, não pode conter-se, nem resignar-se; e o que o seu amante não foi capaz de fazer, fê-lo ela; deitou-se no areal aos pés do velho e pediu-lhe com lágrimas o filho para esposo. Mas ao pescador tinha-o ensurdecido o som das ondas, em que passara a maior parte da vida; e levantando com duro gesto a moça que lhe regava os pés com pranto, declarou-lhe formalmente que a sua decisão era irrevogável. Ela voltou para casa mais triste do que nunca, abatida com tão barbara resposta, e resolvida, custasse o que custasse, a guardar ao seu amante a fé que lhe tinha jurado.
Durante todo o ano do noivado, e moço continuou a vê-la, e quase já tinham perdido a lembrança de que se aproximava o dia da fatal catástrofe, quando o pai se declarou em certo domingo para se celebrar o casamento do moço pescador com a tia Joana da Gramata.
Ele obedeceu porque nestas terras não consta que nenhum filho fizesse nunca a menor observação á vontade imperativa dos pais. A tia Joana era rica, tinha muitas terras, e a sua amante era pobre de bens, e só rica de muita formosura. O dia do casamento passou-se triste: ninguém quisera assistir á ligação eterna de um mancebo na flor da idade com o cadáver ainda que pujante de uma velha de setenta anos. Quando ambos nas trovas chegaram a este ponto, ela cantou então umas cantigas travessas em memória do amor finado para o incitar a descobrir-lhe o estado actual de seu coração. Ele respondeu, como senão fora casado, e todos se espantaram de semelhante declaração no meio do arraial. Era caso novo e altamente escandaloso. É verdade que a tia Joana era velha, e para nada já prestava: mas a Gafanha tinha-a ela povoado, e contava uma parentela de perto de duzentas pessoas. O escândalo porém subiu de ponto quando a formosa improvisadora, dando um certo ar de maldade á sua trova, desferiu contra o pobre mancebo a seguinte cantiga:

- Se estás casado é porque quiseste,
Esta é a hora dos desenganos;
- Deixa-me: vai-te, preferiste aos dezassete os setenta anos.
   Mal acabava e já a tia Joana da Gramata, que tinha vindo sorrateira, pé ante pé por detrás dela, a arrastava pelos cabelos pela eira fora. A moça a este ataque imprevisto e incalculável, sobressaltou-se e desmaiou. Ele não teve forças para acudir á sua triste amante. A velha devorada de ciúmes levantava o punho robusto, e macerava sem alma as mimosas faces da improvisadora. Ninguém ousou arrancar-lha das mãos. Com uma fúria, de que ninguém a julgaria capaz naquela idade, ali a teria acabado, se lhe não valesse a chegada do padre Borracha, confessor da tia Joana, que exprobrando-lhe com ânsia aquele mau tratamento, salvou a rapariga de tão traidor ajuste de contas. Neste momento subiram aos ares muitos foguetes: era a procissão da Senhora da Encarnação que voltava para a sua capela. Esta diversão separou a gente que se tinha apinhado na eira, e as danças recomeçaram. Ninguém mais todavia tornou a ver nem a bela cantora, a quem a tia Joana ferira por tal modo o rosto melancólico, nem o pobre do mancebo, condenado a viver com semelhante fúria o resto dos anos, que lhe faltam para cem; que não morre de menos!

Hugo Cálão
Mestre em história e Património

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