segunda-feira, 21 de junho de 2021

Párocos naturais de Ílhavo: D. Manuel Trindade Salgueiro, Arcebispo

Manuel Trindade Salgueiro, contributos para uma cronologia:


1898-07-28 - Manuel Trindade Salgueiro nasce em Ílhavo filho de gente humilde, ficando órfão de pai muito novo (seu pai perdeu a vida no mar, tragado pelas ondas aos 24 anos, à vista de Ponta Delgada, como tantos dos nossos conterrâneos). Faz a instrução primária no Asilo-Colégio de Nossa Senhora do Pranto de Ílhavo, gerido por irmãs franciscanas missionárias de Calais do Extinto Convento da Madre de Deus de Sá de Aveiro.
1898-10-20 - É batizado na Igreja Paroquial de São Salvador de Ílhavo.

1921-02-19 - É ordenado sacerdote.
1922-00-00 - O Bispo Conde D. Manuel Luís Coelho da Silva envia-o para a Universidade de Estrasburgo onde se licencia em Direito Canónico e faz doutoramento em Teologia.
1923-06-29 - É-lhe passado o certificado de Direito Canónico pelo Conselho da Universidade de Estrasburgo.
1924-01-10 - Data do diploma de Licenciatura em Teologia, assinado pelo Diretor Geral da Instrução Pública e Reitor da Academia de Estrasburgo.
1924-06-28 - Diploma de Estudos Superiores de Direito Canónico pelo Conselho da Universidade de Estrasburgo.
1925-00-00 - Defende a tese de doutoramento sobre "La Doctrine de Saint Augustim sur la Grâce d'après le traité à Simplicien", editada no Porto nesse ano.
1925-10-17 - O Bispo de Coimbra por decreto, nomeia-o para professor de Hermeneutica e Direito Canónico no Seminário de Coimbra.
1926-04-26 - Diploma de Doutor em Teologia pela Universidade de Estrasburgo, assinado pelo Ministro da Educação Lucien Lamoureux.
in jornal O Ilhavense
de 29 de Maio de 1927
1927-10-23 - Nomeado capitular da Sé de Coimbra para o lugar de Cónego Teólogo, com obrigação de proferir a homilia dominical.
1929-00-00 - Publica o compêndio "Apontamentos de Oratória Sagrada".

1931-00-00 - Escreve e são editados em Coimbra os folhetos "Um livro infeliz" e "Trágico descarrilhamento".
1933-00-00 - É editado em Coimbra "Papel da Vontade na Educação", a série de artigos publicados no "Correio de Coimbra" sobre educação e mocidade.
1934-00-00 - É nomeado para a Reitoria da Capela da Universidade e faz o prefácio do livro "Inquietação" de Maria Gabriel.
1935-02-16 - Comunicação proferida na Biblioteca da Universidade de Coimbra "O enigma humano", editada nesse ano.
1935-11-20 - Nomeação para assistente eclesiástico do C.A.D.C., onde escreve para a revista "Estudos" o artigo "Sentido da Vida".
1936-00-00 - Na revista "Estudos" publica "A graça no acto de Fé". Faz na Sé de Coimbra a oração fúnebre de D. Manuel Luís Coelho da Silva, publicada sob o título "Um bispo".
1937-04-08 - Decreto do bispo de Coimbra, D. António Antunes, nomeando-o para o cargo de Oficial da Cúria Diocesana.
1937-05-28 - É contratado para professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde regeu as cadeiras de História da Filosofia Medieval e Moral.
1937-06-04 - Dá a primeira lição na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e publica na revista "Estudos" o trabalho " A inteligência no acto de fé" e colabora no livro à memória do Doutor António de Vasconcelos.
1938-00-00 - Edita em Coimbra a obra "Pureza e Sensualismo", fruto das suas conferências na Sé Nova de Coimbra.
1939-00-00 - Escreve o prefácio de "Cartas Abertas" de Marinho da Silva e colabora no "In Memoriam" do Doutor Serras e Silva.

1940-04-07 - O Bispo-Conde de Coimbra escolhe-o para Assistente-Geral da Ação Católica na Diocese de Coimbra.
1940-11-23 - É nomeado, pelo papa Pio XII,  bispo titular de Helenópole da Palestina, para auxiliar do Patriarcado de Lisboa.
1940-00-00 - Publica na revista "Biblos" o trabalho "Conhecimento intelectual na Filosofia de Fr. João de São Tomás".
1941-02-23 - Recebe na Sé de Lisboa a sagração episcopal das mãos do Cardeal Patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira, sendo consagrantes os bispos de Coimbra, D. António Antunes e o bispo de Vatarba, D. João da Silva Campos Neves.
1941-03-30 - É nomeado Presidente da Junta Central e Assistente Geral da Ação Católica Portuguesa.
1941-04-00 - A Universidade de Coimbra concede-lhe as insígnias de Doutor "Honoris Causa" da Faculdade de Letras.
1941-04-00 - Faz pela primeira vez a cerimónia de bênção da frota de barcos bacalhoeiros em Belém, e largada no rio Tejo para mais uma campanha nos mares da Terra Nova e da Groenlândia.
1941-00-00 - Publica nesse em Coimbra as recensões críticas "Cursum Theologicum Joannis a S. Thomas..."
1942-04-00 - Preside em Lisboa ao Congresso da Juventude Católica Feminina.
1942-00-00 - Prefacia os livros: "Inquietação" do Padre Moreira das Neves, editado em Leiria e "A Igreja e os Problemas Sociais", edição da Ação Católica Portuguesa.
1943-02-11 - É eleito sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa.
1943-00-00 - Escreve o prefácio "Sementeira de Luz" para o livro "Vinte Anos em Coimbra" com trabalhos de D. Manuel Gonçalves Cerejeira.
1943-00-00 - Faz a "Carta Prefácio" do livro "Deus", poema de Miguel Trigueiros.
1945-00-00 - É editado em Coimbra o seu livro "Mensagem Cristã" e prefacia a obra de Civardi "Apostolado no próprio meio", editada em Coimbra.
1947-05-00 - Assiste à canonização de São João de Brito em Roma.
1947-00-00 - Edita em Madrid a tradução espanhola "Pureza y Sensualismo". Prefacia o livro de Ó Brien "Deus existe?", editado no Porto, e "Os problemas actuais à luz do Cristianismo, edição da Ação Católica Portuguesa.
1948-03-15 - Recebe o Diploma de Irmão da "Celestial Ordem Terceira da Santíssima Trindade" da Cidade do Porto.
1948-00-00 - Acompanha a Gloucester, a bordo do navio "Gil Eanes", a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem oferecida pelos pescadores portugueses aos seus irmãos daquele porto piscatório americano.
1948-00-00 - É nomeado Presidente Honorário do Instituto António Cabreira.
1949-03-14 - É elevado ao título pessoal de arcebispo de Mitilene, "in Lesbo Insula". 


1950-03-26 - Preside à bênção da frota bacalhoeira fundeados no Tejo, junto à doca de Belém com cerimónia no Mosteiro dos Jerónimos.
1950-05-00 - Preside ao Congresso da Juventude Independente Católica Feminina.
1950-05-00 - Toma parte, em Roma, nas reuniões preparatórias do Congresso Mundial do Apostolado dos Leigos.
1950-05-00 - Pronuncia o elogio de São João de Deus no 4º Centenário comemorado em sessão solene na Academia das Ciências de Lisboa.
1950-05-00 - Escreve a "Carta-prefácio" do livro "Fátima e a conversão do mundo" da autoria do padre José Pedro da Silva.
1950-12-00 - Participa no Congresso Nacional dos Homens Católicos.
1951-02-28 - Por decreto, a Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém, nomeia-o "Grão-Prior" da Ordem com breve apostólico datado de 9 de Junho.
1951-11-29 - Realiza a Oração Fúnebre da Rainha D. Amélia.
1951-12-00 - Recebe o Diploma da Academia Marial de Roma e escreve a "Introdução" à "História de Jesus segundo a concordância dos Evangelhos".
1952-00-00 - Representa o Episcopado Português nas Comemorações do IV centenário da morte de São Francisco Xavier, realizadas em Pamplona.
1952-00-00 - Aparece em Buenos Aires a tradução espanhola "El papel de la Voluntad em la Educacion".
1953-04-00 - Preside ao Congresso da Juventude Universitária Católica (JUC). Prefacia o livro do Padre Moreira das Neves "O Anjo das Três Loucuras".
1954-01-26 - A S.C. Consistorial nomeia-o Diretor dos Capelães Portugueses para os Navegantes.
1954-04-08 - É eleito académico de número da Academia de Ciências de Lisboa.
1954-04-12 - Participa no Congresso da Juventude Operária Católica (JOC) e da Juventude Operária Católica Feminina (JOCF). 
1954-00-00 - Publica "PIO XII e a Ação Católica e escreve as "Cartas-Prefácios" para as obras de António de Azevedo Pires "O homem que é Deus", de Serafim Lopes "Luz do Infinito", e as palavras de abertura "Flores da Alma" no Boletim "Cormarie".
1955-00-00 - Escreve o Prólogo do livro do Cardeal Mindszenty "A Mãe", editado em Coimbra.
1955-03-18 - É nomeado Diretor Nacional da Obra da Emigração em Portugal.
1955-05-20 - A Santa Sé eleva-o ao Arcebispado de Évora sendo escolhido, para a sede arquiepiscopal de Évora.
1955-07-00 - Assiste ao Congresso Eucarístico Internacional no Rio de Janeiro, visitando várias cidades do Brasil, onde recebe o Diploma de Sócio Honorário da União Portuguesa.
1955-08-15 - Toma posse do Arcebispado Eborense, por procuração.
1955-10-16 - Entra solenemente na Cidade de Évora, proferindo na Sé a Pastoral de entrada.
1955-11-20 - Visita pastoral da freguesia de Lavre.
1955-11-26 - Nomeia Vigário Geral o Cónego Dr. Francisco Maria da Silva, futuro Arcebispo Primaz de Braga.
1955-12-18 - Visita pastoral da cidade de Elvas.
1956-01-03 - Em Faro preside e faz o elogio fúnebre nas exéquias do 30º dia de falecimento do Bispo D. Marcelino Franco.
1956-03-22 - Preside na Sé de Évora às exéquias solenes do 1º aniversário da morte do seu antecessor D. Manuel Mendes da Conceição Santos.
1956-04-15 - Visita pastoral à cidade de Estremoz.
1956-04-29 - Visita pastoral a Montemor-o-Novo.
1956-05-00 - Visita pastoral a Campo-Maior.
1956-06-00 - Visita pastoral a Arraiolos e a Viana do Alentejo.
1956-07-00 - Visita pastoral a Vila Viçosa.
1956-07-31 - Faz o panegírico de Santo Inácio de Loyola na igreja de São Roque em Lisboa, nas comemorações do IV centenário da sua morte.
1956-10-20 - Visita pastoral a Mora.
1956-11-22 - Visita pastoral a Reguengos de Monsaraz.
1956-11-22 - Participa na sagração episcopal nos Açores do seu sucessor na Ação Católica Portuguesa, D. José Pedro da Silva.
1956-11-30 - É acometido de grave crise cardíaca.
1957-03-07 - Retoma as atividades episcopais interrompidas pela doença.
1957-03-08 - Nomeia novos membros para o Cabido de Évora e escreve "Palavras de Apresentação" para o livro "Evangelhos e Actos dos Apóstolos".
1958-04-27 - Preside à sagração na Catedral de Évora do Bispo de Egeia D. José Joaquim Ribeiro, auxiliar de Évora.
1958-05-15 - Nomeia vigário geral o seu Bispo auxiliar.
1958-06-12 - Breve que lhe concedeu o Pálio.
1958-06-28 - Visita pastoral ao Redondo.
1958-08-17 - Inauguração da nova igreja paroquial de Coruche.
1958-10-15 - Faz a oração fúnebre por alma de Pio XII nas exéquias realizadas na Sé e a 4 de Novembro preside ao Te-Deum pela eleição do Papa João XXIII.
1958-12-04 - Apresenta ao Congresso das Misericórdias a tese "Inspiração Espiritual das Misericórdias"
1958-12-12 - Preside à inauguração da Obra Social de São Julião de Monte Trigo.
1958-12-22 - Assiste às solenidades do 7º aniversário da Reconquista de Estremoz e escreve a "Apresentação" da obra "Caminhos da Terra Santa" da autoria de Alberto F. Marques Pereira.
1959-04-00 - Na semana de Estudos comemorativos do XXV aniversário da Ação Católica Portuguesa apresenta a tese intitulada "Fundamentos Teológicos do Apostolado dos Leigos".
1959-05-17 - Assiste à inauguração do Monumento Nacional a Cristo Rei em Almada.
1959-05-28 - Benze as barragens de Montargil e Maranhão.
1959-06-25 - Em Aveiro pronuncia a oração congratulatória do Milenário da cidade.
1959-10-24 - Assiste à abertura do Congresso do IV Centenário da Universidade de Évora.
1959-11-01 - Pontifica e faz homilia na igreja do Espírito Santo.
1959-11-29 - Visita pastoral a Mourão.
1959-00-00 - Escreve os prefácios de "Santos Portugueses" de João Ameal, "O Santo Padre Cruz" de Maria Joana Mendes Leal e "D. José do Patrocínio Dias", do cónego J. Gonçalves Serpa.

1960-03-30 - É condecorado com a Grã-Cruz" da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.
1960-05-21 - Pronuncia o panegírico de São vicente de Paulo na sessão comemorativa do terceiro centenário realizado na Sociedade de Geografia de Lisboa.
1960-07-25 - Parte para Munique a fim de assistir ao Congresso eucarístico Internacional.
1960-08-03 - O Ministro da Marinha concede-lhe a medalha naval comemorativa da Morte do Infante D. Henrique.
1960-11-06 - Preside na Sé de Évora à abertura das Comemorações Condestabrianas.
1960-00-00 - Escreve o "Prefácio" da obra "A alma do arcebispo apóstolo", da autoria de D. Francisco Maria da Silva, editada em Braga.
1961-04-22 - Parte para Roma onde assiste à sessão de trabalhos preparatórios do concílio Vaticano II.
1961-05-28 - Preside à Peregrinação Arquidiocesana a Vila Viçosa.
1961-00-00 - Prefacia o livro "Problemas da Juventude" de a. Alves de Campos.
1962-02-24 - Nomeia novos cónegos e beneficiados da Sé de Évora.
1962-06-05 - Breve Apostólico assinado pelo Cardeal Tisserant conferindo-lhe a "Grã-Cruz" da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém.
1962-09-29 - Anuncia, em Provisão, a abertura do concílio Vaticano II marcada para 11 de Outubro.
1962-10-08 - Parte para Roma a fim de assistir à primeira sessão do Concílio Vaticano II.
1962-12-09 - Assiste em Ílhavo a duas inaugurações: o Bairro dos Pescadores e Capela e o Centro Social, inaugurado com o seu nome.
1962-00-00 - Escreve "Palavras" em "Faculdades e Normas para o Ministério Pastoral", editadas em Évora.
1963-02-02 - Publica a Provisão que anuncia à Arquidiocese a Missão que se realizará em Évora de 3 a 17 de Março.
1963-05-30 - Preside à trasladação dos restos mortais de D. Manuel Mendes da Conceição Santos do cemitério dos Remédios para o túmulo no claustro da Sé de Évora.
1963-06-05 - Profere uma alocação aos microfones da emissora Nacional na morte do Papa João XXIII
1963-07-12 - Preside e faz a oração fúnebre nas exéquias pelo Papa João XXIII.
1963-07-28 - Preside ao Te-Deum pela eleição do Papa Paulo VI.
1963-00-00 - Prefacia a 1º volume da "Obra Oratória" de D. Augusto Eduardo Nunes publicado em Évora pela Junta Distrital.
1964-02-05 - Publica a Provisão sobre a Sagrada Liturgia conforme as normas aprovadas no Concílio Vaticano II
1964-03-19 - Colabora na Pastoral Coletiva do episcopado acerca do 1º Centenário do Apostolado da Oração em Portugal.
1964-08-08 - Anuncia à Arquidiocese a próxima abertura do instituto de estudos superiores de Évora.
1964-09-12 - Parte para a 3ª sessão do Concílio Vaticano II, não tendo assistido à 2ª sessão por motivo de doença.
1964-09-14 - Envia de Roma para "A Defesa" o 1º artigo duma série de 9 artigos sobre o Concílio.
1964-10-07 - Foi consagrante do primeiro Bispo de Vila Cabral, D. Eurico Dias Nogueira.
1964-00-00 - Escreve os prefácios para os livro "As Pombas da Virgem de Fátima" do cónego Sebastião Martins dos reis e Padre Adriano Chorão Lavajo Simões e "Francisco de Assis, Renovador da Humanidade" de Guedes de Amorim.
1965-02-00 - Publica em volume uma série de artigos que escrevera em "A Defesa", sob o título de "O Seminário ... esse desconhecido".
1965-05-09 - Faz a que seria a sua última Peregrinação Arquidiocesana a Vila Viçosa.
1965-09-20 - Morreu em Ílhavo após prolongado sofrimento.
1968-12-29 - Devido ao seu empenho na construção em Ílhavo da antiga Escola de Pesca, do Bairro dos Pescadores e do Centro Paroquial, é homenageado com uma estátua em bronze da autoria do escultor Leopoldo de Almeida, colocada num amplo largo no centro da cidade, inaugurada pelo Presidente da República de então, Almirante Américo Tomás, recordando-o como o “Bispo do Mar”.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Contributos para a religiosidade marítima em Ílhavo - Ora Bamos lá com Deus!

Em tributo ao meu bisavô, Capitão Francisco dos Santos Cálão, 
ao bisavô da Marlene, Manuel Rodrigues da Paula e aos que deram a sua vida ao mar!
Dedicado aos nossos filhos, Zé Miguel, João Pedro e Leonor 

Ílhavo, terra de marinheiros e pescadores de bacalhau! Homens de fé que, fazendo igreja dos seus barcos, lugres e dóris, sulcaram um oceano de tormentas e naufrágios em busca do sustento dos filhos e mulheres que por eles rezavam junto da imagem do Senhor Jesus dos Navegantes na igreja de Ílhavo, o seu cantinho natal.

Hoje, embora apartados dessa dura e inimaginável realidade, tentaremos dar testemunho do quão extenuante seria um dia de pesca de um pescador de linha, desde os "Louvados" (invocação religiosa com que se faz o despertar), até que, vencido pela fadiga e pelo sono, cairia no beliche para descansar umas escassas horas (três ou quatro nas vinte e quatro) retemperando forças para recomeçar luta idêntica no dia seguinte.
Lugre Santa Izabel, foto MMI


Imaginemo-nos então na década de 30, vendo a tripulação a bordo de um lugre bacalhoeiro (neste caso, e por sentimento familiar de imaginação, a bordo do navio Santa Izabel, para a campanha de 1937, conduzida pelo meu bisavô Francisco e onde curiosamente o bisavô da minha mulher também embarcou como pescador) - um total de 50 homens: capitão, imediato, piloto, motorista, ajudante de motorista, pecadores de 1.ª, 2.ª e 3.ª linha, pescadores, moços, verdes, escaladores, salgadores, cozinheiro e demais trabalhadores do bacalhau.

A madrugada, límpida e calma, é prometedora de um bom dia de pesca no Virgin Rocks (o Grande Banco, plataforma da Terra Nova).

Entremos! Mal pomos o pé a bordo ouvimos o vigia que grita em voz forte os "Louvados":

Seja louvado e adorado Nosso Senhor Jesus Cristo! Olha que são quatro horas!! Ó mestre! Dê o almoço aos homens! (Muitos dão os Louvados cantando).

Logo todos se levantam e, depois de prontos, encaminham-se para a mesa; comida a refeição a hora tão matutina, vão receber o isco para os anzóis, que varia entre sardinha, cavala ou lula; vestem os fatos de oleado compostos das seguintes peças: calça, ou saia, casaco, botas de borracha de cano até à coxa, e na cabeça enfiam o sueste. (- o chapéu de oleado assim chamado por se usar contra a chuva que vem da direção do mesmo nome.)

Em seguida, o cozinheiro dá a cada um a aviação (- merenda) para todo o dia: peixe frito, pão, um barril de água, e alguns mais felizes levam consigo aguardente sua, se a têm, metendo tudo isto no foquim. (- a vasilha própria para levar a comida semelhante aos tarros do Alentejo)

A companha (- tripulação) vai-se juntando no convés para o mata-bicho distribuído por um moço: um bom cálice de forte aguardente a cada um. Calçando luvas de lã (- luvas especiais só com um dedo, o polegar, e uma espécie de saco para os restantes dedos de modo a que, em contacto direto uns com os outros aqueçam mais rapidamente), dirigem-se então para junto dos dóris empilhados no convés, e começam a arrear, isto é, a ir para o mar. O capitão a uma borda do navio, o imediato a outra, vão arreando os botes, cada qual com o respetivo pescador dentro. 
Ao ser arreado à água o pescador descobre-se do sueste e diz com todo o respeito e muita fé, benzendo-se alguns: 

Ora bamos lá com Deus!

No dóri (-do inglês dory), toda a palamenta, ou estrafego está em ordem: foquim com a aviação; a vela enrolada num pequeno mastro desmontável; o ferro de ancoradouro; o rodo ou corda do ferro; dois riles (- do inglês reel) que é um aparelho de madeira com punhos para o fácil manejo das linhas, cada um com a sua linha enrolada e a sua zagaia ou chumbada na extremidade, sendo usada uma ou outra se o peixe exige, ou não, o isco; um bartedouro para escoar a água do dóri; um búzio para chamar em caso de perigo; agulha de marear; dois desembuchadores, ou paus com meia braça de comprido que servem para tirar o anzol do bucho do bacalhau quando este engole o isco; balde para escoar a água e que às vezes é aproveitado para deitar nele o isco tirado do peixe pescado; roleto para alar o ferro; duas forquetas; dois remos; um cesto para o trole (- conjunto de 12 linhas, ou mais, com 50 braças cada uma e para cima de 600 anzóis distanciados uns dos outros cerca de uma braça, nome que vem do inglês trawl); finalmente uma linha com 50 braças para a baliza, ou boia, com o seu grampolim. (do inglês grapnel, um pedaço de ferro ou chumbo com 5 a 6 quilos e que é lançado ao fundo do mar.)


Remando, ou com a vela içada se está vento de feição, o homem do dory navega na direção em que o seu palpite lhe diz haver peixe. Chegada a altura em que lhe parece própria, arreia o pano e começa a pesada tarefa de largar o trole. Lança a baliza à água exclamando: 

Vai na hora e no nome de Deus!

E começa a remar até que a linha da baliza fique bem esticada, e, feito isto, mete os remos dentro, largando o grampolim que prenderá a baliza no fundo do mar, segurando sempre no mesmo sítio. Começa então a iscar anzol por anzol, que vai deitando à água, deslizando o dóri à rola, conforme o vento. Largada a última das linhas, amarra a extremidade ao próprio ferro do bote e espera o tempo que lhe parecer suficiente, consoante a abundância de peixe. E neste momento está a cerca de 1700 metros da boia e a 10 milhas, ou mais, do seu navio.
Entretanto, enquanto espera, para não arrefecer e aproveitar o tempo, enfia as nepas (- espécie de ligas largas de borracha que protegem as mãos e evitam que as linhas as firam e magoem), desenrola as linhas dos riles e começa a zagaiar, operação que consiste em largar na água a zagaia até uma braça de fundo, e depois fazê-la subir e descer verticalmente cerca de dois metros, num movimento rápido de frente para trás.

A zagaia é um pedaço de chumbo com 25 cm de comprimento, brilhante, de forma oblonga, sustentando dois anzóis em baixo em forma de fateixa. E o bacalhau, que é um peixe extremamente voraz, ao ver o chumbo a brilhar e a mexer, abocalha-o julgando ser alimento. Tanto basta para ser fisgado pelos anzóis grossos da arma que o seduziu. Entre a zagaia e a linha à ainda um engenho de ferro de nome suevo (- do inglês swivel) e que serve para evitar que as linhas se distorçam.

Passadas umas horas com o trole na água, o pescador começa a pesada tarefa de o alar. Recolhe as linhas palmo a palmo, desembaraça o peixe dos anzóis, e o trole vai entrando no cesto, ficando disposto circularmente com os anzóis para dentro.
Ao apanhar o primeiro peixe, solta a mesma invocação bela, mas agora, como acto de grato reconhecimento:

Graças a Deus que já me estreei!!

Os anzóis que ficaram sem isco são iscados de novo, e o bacalhau vai enchendo os dóris. Se o peixe pescado cobre só o lugar ocupado pelo balde, é peixe a balde, ou um quintal; se chega à altura da sarreta, é peixe à sarreta, ou quintal e meio; a ré cheia é peixe à ré, ou dois quintais; a ré cheia e ainda algum à proa, é peixe à proa, ou dois quintais e meio; bote carregado são três quintais e meio a quatro; fundo tapado é o mesmo dez quilos; jaja tapada representa um quintal.


Se encheu o bote e ainda ficou por alar parte do trole, vai a bordo levar o bacalhau pescado e volta ao local onde tem o aparelho para terminar a recolha da pesca; se não carregou o dóri, dá nova trolada ali mesmo ou em sítio diferente. E assim todo o dia, até que o capitão faça a chamada; bandeira içada no topo do mastro. 
Por vezes o trole não apanha só bacalhau; pesca também guelhas ou tubarões. E é perigosa  a recolha desses animais! Ao vê-los, o pescador toma o remo e brande-o, com força e ódio, contra o seu maior inimigo, por lhe destroçar as linhas, comer e afugentar a pesca, além do perigo que representa para o próprio homem voltando-lhe o bote. E locais há ainda em que, se a recolha do trole for demorada, pode cair em cima do bacalhau preso aos anzóis uma multidão fantástica de pulgas do mar que comem o bacalhau em poucas horas, deixando apenas as espinhas.

Vendo a bandeira da chamada, todos os homens começam a dirigir-se para o navio. É quase sempre ao pôr-do-sol, mas têm ainda muito que fazer antes que se possam deitar!
Depois de longas horas a pescar no dóri, o pescador tem mais umas horas de jornada de trabalho a escalar e a salgar bacalhau. Este acréscimo de tarefas ao trabalho no dóri deixa o pescador exausto no final da jornada. Conforta-o uma chora (-caldo de cabeça de bacalhau) e pão e depois o escasso tempo de descanso. 
Santa Isabel, gesso policromado, Igreja paroquial de Ílhavo
Santa Isabel, c. 1935
gesso policromado,
Igreja paroquial de Ílhavo

Para hoje não há mais e amanhã Deus dará! 

Pois logo mais, nova jornada intensa de trabalho se perspetiva. Os "Louvados" vão voltar com o amanhecer enevoado e frio da Gronelândia.

O lugre Santa Izabel naufragou a 22 de outubro de 1958 por água aberta na viagem de regresso dos bancos da Terra Nova. 

Francisco dos Santos Calão - CAMPANHAS/NAVIOS - Águia (1921); Silvina; Rosita; Santa Izabel (1936-37); Santa Joana (1938-46); São Gonçalinho (1948-53)

Manuel Rodrigues da Paula - CAMPANHAS/Navios - 1º Primeiro Navegante (1943); Alan Villiers (1955-58). http://homensenaviosdobacalhau.cm-ilhavo.pt/header/diretorio/showppl/818 



Hugo Cálão - Ílhavo, 20 de Dezembro de 2020

domingo, 6 de dezembro de 2020

Os ex-votos "perdidos" da Igreja de Ílhavo

 Em 1937 Diniz Gomes, quase que antevendo o descaminho e volatilidade a que o património religioso das nossas igreja está sujeito, descreveu em listagem detalhada 22 dos 24 ex-votos pintados que existiam na parede lateral do altar do Senhor Jesus dos Navegantes da Igreja Matriz de Ílhavo.

Dos 24 mencionados, então, sobrevivem hoje no espólio da Igreja Paroquial de Ílhavo 19, descritos em 2007 na publicação, Senhor Jesus dos Navegantes- Mar e devoção.

Hoje, na esperança de que alguém possa informar do paradeiro dos cinco desaparecidos publicamos a listagem e fotografia dos "perdidos"!

Agradecemos a quem nos faça chegar informações, histórias e fotografias antigas dos ex-votos outrora existentes na parede lateral do altar do Senhor Jesus dos Navegantes de Ílhavo.

"Dão-se alvíssaras!"


Ex-votos em falta do Senhor Jesus dos Navegantes da Igreja de São Salvador de Ílhavo:

1 - Ex-voto Senhor Jesus dos Navegantes / Chalupa Patriota

(subscrição: Oflréçe este Cuadro ao S.re Jesus João Simões Chuva i seu Cunhado Julio Antonio da Silva. i a Mais tripulação. ass: H. B. Praça)

2 - Ex-voto Senhor Jesus dos Navegantes / Barca Glama

(subscrição: José da Costa Carolla Offerece ao Senhor Jesus a Barca «Glama» em promessa. ass: Mathias)

3 - Ex-voto Senhor Jesus dos Navegantes / Barca Glama

(subscrição: Offerece a tripulação da Glama)

4 - Ex-voto Senhor Jesus dos Navegantes / Hiate Grande Batista

(subscrição: Millagre que fez o Senhor Jezus á tripulação do Hiate Grande Batista no dia 20 de Dezembro de 1869. Estando no mar de baixo uma grande tempestade na Latit. 41-40 N. e Long. de 9-53, pediram ao Senhor Jesus que os livrasse da morte e os levasse a porto de salvamento, e logo d'ahi a pouco virou o vento, o foram caminho de Lisboa aonde entraram no dia 22 do mesmo mez, a salvam.to)

5 - Ex-voto Senhor Jesus dos Navegantes / Hiate Conceição de Aveiro

(subscrição: Hiathe Conceição d'Aveiro − Offerecido por José Marques ao Snr. Jesus)

Ver + em: http://ww3.aeje.pt/avcultur/Avcultur/ArkivDtA/Vol03/Vol03p117.htm

Hugo Cálão, 06 Dez 2020

Na foto ex-voto em falta.
Fotografia de 1972 representado ex-voto de um vapor, em falta, .


sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Párocos naturais de Ílhavo: Pe. João Manuel Cajeira

O Pe. João Manuel Cajeira nasceu em Ílhavo a 16 de Agosto de 1928, filho de Manuel Pereira Cajeira e de Maria do Nascimento. Frequentou o Seminário de Santa Joana, Aveiro e o dos Olivais em Lisboa, sendo ordenado sarcedote em 29 de Junho de 1954, na Sé de Aveiro por D. João Evangelista de Lima Vidal. Iniciou-se como Vigário Paroquial de Águeda, sendo pároco de Águeda a 2 de Janeiro de 1957, sendo nomeado a 11 de Dezembro de 1958  pároco na Paróquia de São Lourenço de Pardelhas, concelho da Murtosa, onde permaneceu, durante 37 anos. Foi, também, Capelão da Santa Casa da Misericórdia da Murtosa e professor no Externato da Murtosa, em Ovar e Estarreja. Faleceu em Pardelhas a 27 de Outubro de 1995, sendo sepultado no cemitério de Ílhavo.




quinta-feira, 8 de outubro de 2020

A oração do Mar - por D. Manuel Trindade Salgueiro, 1947


imagem: Igreja de Nossa Senhora da Areias de São Jacinto, pormenor do painel de cerâmica "Eucaristia do mar", 1994, Jeremias Bandarra e Zé Augusto
contributo para uma religiosidade ligada ao mar (Hugo Cálão 2020)
"De todas as obras da criação, o mar é das que mais alto proclamam a sabedoria e o poder de Deus. Alarga-se o olhar ansioso pela amplidão da sua superfície, e o espírito parece abismar-se no Eterno. Até às vezes há a impressão de que na orla do horizonte, onde o azul da água se confunde com o azul do céu - dois azuis religiosos - vai surgir o Criador que faz o mar tão vasto e tão profundo.
Do seu mistério insondável, também nós participamos. Mistério de imensidade, mistério de energia, que não cansa! Em crise revolta de tempestade e em horas pacíficas de calmaria, sempre a voz cava do mar é salmo compungido. Reza a oração de louvor, que é devida a Deus, por suas perfeições infinitas; reza a oração de agradecimento, que a sua munificiência divina merece.
Envoltos em atmosfera subtil de misticismo, aprendem os marinheiros a viver - até sem o saberem - aquele sentimento religioso, que dá asas para o voo das alturas. Imersos em imensidade, sentem a imensidade de Deus que os ampara, em contacto diário e intimo com o misterioso poder que os domina, compreendem, como poucos, o poder supremo do Invisível, tornado visível nas obras que por amor criou.
Com o mar rezam e choram, pois são orações e lágrimas as suas promessas fervorosas, os seus devotos "louvados", os seus ex-votos comovidos, a sua indescritível nostalgia da vastidão oceânica.
Talvez não consigam traduzir, em formulas teológicas, a sua sede de infinito, mas nem por isso ela deixa de ser ardente e actuante.
Também as populações ribeirinhas de Ílhavo e Aveiro, habituadas à oração do mar, aprendem a rezar com ele, mesmo quando não embarcam. Dai o bordado gracioso das capelinhas do litoral, onde desafogam as suas emoções, gritam aflitivamente as suas súplicas e entoam com entusiasmo os seus louvores.
Tinha um encanto especial a pregação do Salvador, quando fazia da proa de pequenos barcos a sua cátedra predilecta. Sempre penetrante e vigorosa, a sua palavra era acompanhada da oração do Mar de Tiberiades, que aumentava ainda o sabor religioso da sua doutrinação de luz."
(nota: aos heróicos trabalhadores do mar, que partiram para as longínquas paragens do Norte, afim de que toda a mesa portuguesa seja farta e alegre.)
- imagem: Igreja de Nossa Senhora da Areias de São Jacinto, pormenor do painel de cerâmica "Eucaristia do mar", 1994, Jeremias Bandarra e Zé Augusto

quarta-feira, 29 de julho de 2020

São Salvador, o padroeiro da Freguesia de Ílhavo

São Salvador 
calcário policromado 
atribuído à oficina de João de Ruão
c. 1575; Século XVI ; inv PILH04 0008

O património religioso da freguesia de São Salvador de Ílhavo é sem dúvida a história continuada e a mais real prova da vida social da cidade. A história de Ílhavo não se escreveria sem este. Por isso, como registo físico da nossa memória, é essencial a sua conservação, valorização e divulgação.

Honrando o seu padroeiro, a Junta de Freguesia de Ílhavo encomendou uma réplica em madeira da escultura de São Salvador, à empresa casa Arte Sacra de Fânzeres em Braga, empresa que na década de 50 e 60 do século 20 realizou para a matriz algumas das esculturas ao culto, escultura que ficará no edifício da Junta de Freguesia e que servirá para relançar a realização da festa do padroeiro da Freguesia, que se celebra no dia 6 de Agosto. Este objectivo estava traçado para o ano de 2020 com procissão, no entanto, a situação de pandemia que vivemos veio adiar este propósito festivo da sua comemoração, celebrando-se apenas a festa litúrgica com Eucaristia na Igreja Matriz no domingo dia 9.

Já em 1220, na inquirição de D. Afonso II na terra do Vouga, se faz referência a Ílhavo e sua igreja, referida no rol das igrejas da Diocese de Coimbra de 1209 como dedicada a Sanctus Salvator de padroado régio e oito casais. 

A primitiva escultura existente na matriz é uma soberba imagem renascentista em calcário policromado, atribuída à oficina de João de Ruão, provável encomenda de D. Pedro de Castilho, filho do arquiteto Diogo de Castilho, que em 1574 foi prior da Igreja de Ílhavo. 

D. Pedro de Castilho foi uma das figuras mais destacadas de Portugal durante o governo da dinastia filipina (1580 - 1640), onde ao abrigo do que ficara estabelecido nas Cortes de Tomar de 1581, a regência do Reino de Portugal devia ser sempre confiado pelo rei a um português, ou em alternativa a um membro da Família Real. Pedro de Castilho, como 7.º bispo da Diocese de Angra, foi por duas vezes Vice-Rei de Portugal, de 24 de Maio de 1605 a Fevereiro de 1608 e no ano de 1612.

Seu pai, Diogo de Castilho, importante arquiteto e escultor biscainho nascido em finais do século XV, em 1528, elaborou a reconstrução do portal e das abóbadas da Igreja de Santa Cruz, em Coimbra e, durante mais de cinquenta anos, trabalhou em parceria com o escultor João de Ruão, o que poderá explicar a renovação arquitetónica do século 16 da Matriz de São Salvador de Ílhavo, visível hoje apenas nas quatro esculturas sobreviventes do primitivo retábulo-mor que se suspeitam do seu risco: São Salvador, Santo André, São João Baptista e São Cristóvão. 

A imagem de Cristo está representada no momento da sua transfiguração, em posição frontal, de pé e descalço, vestindo túnica de cor azul ultramarino, debruada a galão de ouro e decorada com elementos vegetalistas e florais a ouro, policromia aplicada no século XIX. O tratamento da cabeça mostra a mestria das oficinas da renascença Coimbrã, de nariz recto, maçãs do rosto salientes e lábios finos rasgados na horizontal, envolvido pela barba ondulada, de cor castanha e cabeleira ondeada que cai sobre as costas. Encontra-se com a mão direita levantada, abençoando com o indicador e dedo médio e segurando na mão esquerda, junto ao tronco, orbe esférica de cor azul, símbolo do cosmos, encimada por uma grande cruz de cor castanha, símbolo da sua paixão, preconizando-o como Divino Salvador da humanidade. 

Julho 2020 Hugo Cálão, mestre em História e Património

domingo, 14 de junho de 2020

Relicário de São Francisco Marto, pastorinho de Fátima em Ílhavo

in jornal O Ilhavense de 15 de Junho 2020


Este artigo trata da identificação, salvaguarda e mediação de bens culturais de relevante interesse patrimonial e devocional na Diocese de Aveiro, pretendendo dar a conhecer a cruz peitoral-relicário do arcebispo de Évora, D. Manuel Trindade Salgueiro, montada sobre relíquia das ossadas de Francisco Marto, pastorinho de Fátima pertença do espólio da Paróquia de São Salvador de Ílhavo.
Cruz peitoral-relicário de São Francisco Marto ouro, ametista, diamantes, esmalte Ourivesaria Aliança, seculo XX, 1941 Legado do Arcebispo de Évora Dom Manuel Trindade Salgueiro à Igreja Paroquial de São Salvador de Ílhavo,  depositada por familiares no Museu Marítimo de Ílhavo
Cruz peitoral-relicário de São Francisco Marto
ouro, ametista, diamantes, esmalte
Ourivesaria Aliança, seculo XX, 1941
Legado do Arcebispo de Évora Dom Manuel Trindade Salgueiro
à Igreja Paroquial de São Salvador de Ílhavo, 
depositada por familiares no Museu Marítimo de Ílhavo

Muitos desconhecem que na igreja de Ílhavo existe esta especial relíquia de São Francisco Marto, pastorinho de Fátima, das poucas fora do santuário. 
A história cruza o momento da exumação das ossadas do pastorinho com a presença de D. Manuel Trindade Salgueiro.

Francisco, o pastorinho de Fátima, nasce a 11 de Junho de 1908 em Aljustrel, paróquia de Fátima, sendo o penúltimo dos sete filhos de Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus. 

Relembrando a pandemia atual, foi vítima da epidemia da gripe pneumónica que assolou o país, também conhecida por gripe espanhola, adoecendo a 18 de outubro de 1918, pouco mais de um ano depois da última Aparição da Virgem, doença que chegara a Portugal no meio desse ano e em pouco tempo causou a morte de dezenas de milhares de pessoas.

Morre serenamente pelas no dia 4 de Abril de 1919, aos 10 anos, sendo sepultado no cemitério de Fátima no dia seguinte.
Foi canonizado juntamente com a sua irmã Jacinta pelo Papa Francisco a 13 de maio de 2017 no Santuário de Fátima e centenário da aparição.

Os seus restos mortais foram identificados e exumados, em 17 de fevereiro de 1952, e trasladados para a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em 13 de março de 1952, onde repousa no braço direito do transepto. 

No dia da exumação terá sido entregue a D. Manuel Trindade Salgueiro, na altura aí presente como Arcebispo de Mitilene, um pequeno fragmento das ossadas do pastorinho doado pelo pai de Francisco, Manuel Marto, que o nosso bispo do mar devotamente resguardou juntamente com folha da oliveira da aparição, na sua cruz-peitoral. 
A sua cruz peitoral foi encomendada na Ourivesaria Aliança em 11 de Janeiro de 1941 e oferecida pelo povo de Ílhavo por subscrição a D. Manuel Trindade Salgueiro na sua sagração como Bispo de Helenópolis no dia 24 de Fevereiro de 1941 em Lisboa, missa presidida por D. António Antunes, Bispo-Conde de Coimbra e D. João da Silva Campos Neves, Bispo de Vatarba, coincidindo com o 20º aniversário da sua primeira missa.






sábado, 30 de maio de 2020

A Virgem da Penha de França de Ílhavo - Santuário Mariano 1707

Santuário Mariano e Historia das Imagens milagrosas de Nossa Senhora, 1707, Frei Agostinho de Santa Maria


A Virgem da Penha de França da Vista Alegre de Ílhavo

Partilho convosco a comunicação feita em 21-04-2018 sobre a Igreja da Vista Alegre de Ílhavo e o culto à Virgem da Penha de França pois muitos desconhecem o porquê da sua construção e dedicação.

Lisboa dedicou à Virgem da Penha de França (ou a Virgem de Simão Vela) uma das sua mais magníficas igrejas após a famosa batalha de Alcácer-Quibir, quando perdemos D. Sebastião, e após a pandemia da peste assolar Portugal em 1569, visto a vizinha Espanha se ter livrado do flagelo graças à intervenção de Nossa Senhora da Penha de França, o Senado da Câmara de Lisboa prometeu construir um grandioso templo, se ela livrasse a cidade da moléstia, o que fez em 1598.
Ainda hoje em tempos de pouca saúde a cidade de Lisboa lhe recorre.

A Igreja da Vista Alegre foi projectada para ser um grande santuário mariano em Aveiro, por voto do Bispo D. Manuel de Moura Manuel. Após termos ganho a independência ao domínio espanhol em 1640 e devido ao condicionamento da fronteira de peregrinação para o primitivo Santuário da Penha de França em Salamanca, D. Manuel de Moura Manuel, por especial devoção resolve dedicar à Virgem da Penha em Portugal, na sua quinta da Vista Alegre, este magnífico monumento, hoje monumento nacional e uma das mais belas igrejas do barroco inicial. Começando a sua construção em c. 1691 estaria já adiantada em 1694, data dos magníficos azulejos de Gabriel del Barco. Sabemos que a 15 de Julho de 1693, a arquitetura estaria terminada, instituindo-se no largo da Capela uma feira aos dias 13 que perdura nos dias da hoje.

Quem foi D. Manuel de Moura Manuel (1632-1699)?

D. Manuel de Moura Manuel nasce em Serpa em família nobre. Por parte do pai era neto de Dom Féliz de Gusmão que foi irmão de São Domingos e da parte da mãe descendente de D. Constança Manuel, rainha de Portugal que foi casada com o Sereníssimo Rei Dom Pedro I de Portugal e com o católico rei Dom Fernando de Castela e Leão.

Sendo o segundo filho, seu irmão Rui de Moura Manuel era senhor da Quinta da ermida em Ílhavo, tinha a opção de seguir dois caminhos: a carreira militar ou a carreira eclesiástica. Uma vez que o seu irmão Cristóvam era Frei, o seu tio D. Jorge de Melo era Bispo de Coimbra, por devoção, decidiu enveredar pelo caminho da religião católica.
Serviu nas guerras contra Espanha, antes denominada Castela, e foi conselheiro do Rei D. Pedro II. A sua formação foi na Universidade de Coimbra na qual se doutorou. A sua carreira de prestígio e logo após ter recebido o capelo da Universidade, 1659, foi provido a cónego de Lamego e Braga. Serviu a Inquisição durante 28 anos, em Évora como deputado, 1660, em Coimbra como inquisidor e presidente, 1666, tendo subido a Ministro do conselho geral da Inquisição no tribunal da corte de Lisboa e conselheiro do Sereníssimo Rei de Portugal, sendo depois reitor da Universidade de Coimbra, 1685, de onde saiu para assumir o bispado de Miranda do Douro, 1690. Em 1697 pede uma licença ao papa,não podendo fazer a visita ad limina por ter sido acometido de doença terrível que o pôs às portas da morte. Sabe-se que, para além do seu estado de saúde e o risco de viagens longínquas, haveria outra preocupação: a necessidade de dispor e assistir à fábrica de um sumptuosíssimo templo que, por voto, mandou fazer a Nossa Senhora sob a invocação da penha de França. Esta obra terá começado antes de assumir o bispado e com verbas vindas de bens patrimoniais e rendas de cargos anteriores a essa nomeação. Sabe-se também que D. Manuel tinha um gosto delicado por obras de arte que levou a que enriquecesse com o que de melhor existia no reino a magnífica Capela da Vista Alegre em Ílhavo (escultores, azulejadores, arquitetos, pintores - João Antunes, arquiteto regio, Claude Laprade, escultor , Gabriel del Barco (1648?-1706?), pintor)como confirma o estudo do Professor Ayres de Carvalho sobre estas encomendas de obras de grande valor artístico.

Como surgiu a devoção e culto de Nossa Senhora da Penha de França?
Simon Roland ou Simão Vale (1425/9 Maio 1434) era francês, nascido em Paris, filho de Rolan e Bárbara, nobres e ricos. Abandonou a riqueza e o conforto e dando tudo aos pobres e refugiou-se num mosteiro da Ordem Franciscana. Seu sobrenome Vela resultou de uma constante advertência, que lhe parecia ouvir do Céu: — "Simon, vela, e não durmas!", em suas prolongadas orações.
Recebendo, no convento, uma revelação mística da Virgem, esta lhe indicou que tinha que partir, em peregrinação, a fim de procurar a Penha de França.
— O que seria, onde estaria? — Em sua pátria?
Durante cinco anos, Simon andou, andou, inútilmente.
Avultavam, na Idade Média, as peregrinações ao túmulo do Apóstolo São Tiago, em Compostela. Seguiam o itinerário clássico da passagem pelo Santuário de Puy, tão famoso que se considerava sagrado o peregrino que o visitasse.
Com medalha de chumbo, de Nossa Senhora do Puy, servindo-lhe de salvo-conduto, Simon juntou-se a uma dessas romagens piedosas.
Acompanhou alguns peregrinos a Castela e a Salamanca, esperançoso de encontrar, entre os universitários, notícias da Penha de França. Mas, apesar de tão perto do lugar, permaneceu seis meses ainda, em buscas infrutíferas . Finalmente, uma tarde, meteu-se entre o povo, numa praça pública.
Ouviu um pastor referir-se à Penha de França, nome tão ansiosamente acalentado. Logo, empreendeu a caminhada para o sítio apontado. Difícil foi atingí-lo. Dias e dias, buscou, entre as fendas e grutas, o que desejava, até que, exausto, uma noite, foi surpreendido, pela fúria de uma tempestade,
no meio da qual se desprendeu uma pedra. Rolou, atingindo-o na cabeça e prostrando-o, desfalecido!
Na segunda noite, já, mais ou menos, refeito, em oração, ouviu a mesma voz que o acompanhava:
— Simon, vela y no duermas!
Repetia-se o aviso que o levou a trocar o nome de Rolan pelo de Vela. Na terceira noite, rezando, rezando sempre, percebeu extraordinário clarão, no meio do qual distinguiu uma cadeira tão adornada que parecia de ouro . Uma senhora formosíssima veio sentar-se ali. Trazia, nos braços, um menino encantador! Falou-lhe: — "Aqui, cavarás e o que achares deverás pôr no mais alto do monte, e uma casa farás. Tu a começarás e outros virão concluí-la. Estou satisfeita, meu filho."
Simon desceu a San Martin dei Castanar, onde encontrou cinco pastores, que se prontificaram a auxiliá-lo nas pesquisas. Após muito trabalho e muitos revezes, descobriram todos a desejada imagem da Virgem Maria, com o Menino Jesus, nos braços. Um dos pastores, escrivão, tudo anotou. Estavam em 19 de Maio de 1434.
Simon curvou a cabeça e tocou-a na imagem. Curou- se, imediatamente, da cicatriz que a pedra lhe fizera e que se agravara, com o frio e a falta de medicamento .
Conhecido o fato, organizaram-se romarias de preces
e construiu-se uma cabana, para abrigo do precioso achado, iniciador do Santuário da Virgem da Penha, na Espanha. Faleceu em 1437, cinco meses após o estabelecimento da Ordem Dominicana, com sete religiosos, na Penha de França. Quando exumado, o seu crânio apresentava ainda o sinal deixado pelo bloco de pedra.
O primitivo santuário da Virgem da Penha de França encontra-se na Província de Salamanca, numa linda e formosa região: “de La Sierra de Francia” (da Serra de França). Ali se contempla uma esplendorosa e singular paisagem que abrange a imensa planície castelhana, as montanhas das Hurdes e a Serra Estrela de Portugal.

O Património da Igreja da Vista Alegre:

A Capela de Nossa Senhora da Penha de França é um belo exemplo da arquitetura maneirista e do barroco. O seu altar-mor tem uma muito interessante representação do presépio e os tetos do espaço estão repletos de pinturas murais. O teto da capela-mor mostra-nos a Assunção da Virgem e o teto da nave da igreja a Árvore de Jessé. Na capela, destaque ainda para o conjunto de painéis de azulejos setecentistas de Gabriel del Barco, que representam cenas da vida da Virgem.
Esculpido em pedra de Ançã pelo escultor francês Claude Laprade, o túmulo monumental de D. Manuel de Moura Manuel e a representação da Virgem da fachada são de uma sensibilidade digna de se ver e denota um arrojo de modernidade para a época, os finais do século XVII.

Ao contrário das indicações do Vaticano, a estátua jacente do bispo não se encontra totalmente na horizontal com as mãos postas sobre o peito. Ao invés, a figura do bispo soergue-se do leito da morte e olha para a imagem da Nossa Senhora da Penha de França, a patrona da capela a quem era devoto. Com a mão direita a permitir o equilíbrio e a esquerda como que a começar um gesto a partir do peito, todo o movimento que a escultura imprime é de uma grande sensibilidade.

Ao avistar, no seu leito de morte, a Nossa Senhora da Penha de França, D. Manuel de Moura Manuel ergue-se para a santa e contempla a vida eterna, escapando assim aos braços da morte.

Todo o túmulo é de uma iconografia forte. Começa logo pelos dois leões de pedra que com dificuldade suportam o túmulo, indicando assim o peso da importância do defunto aqui sepultado. Ladeando o túmulo, surgem duas fénixes, em forma de carpideiras e, aos pés do leito da morte, um anjo que segura um crânio.

Sendo figura central do drama, a Nossa Senhora da Penha de França surge-nos em tamanho pequeno e descentrada, ao alto do lado direito de todo o conjunto monumental, para que o rosto de D. Manuel de Moura Manuel possa olhá-la de frente. A figura central é antes o tempo, apresentado como um velho, que está ladeado por dois anjos que levantam o véu da morte, permitindo assim ao bispo contemplar a vida eterna. No arco do conjunto estão esculpidas caveiras que ostentam chapéus representativos das mais elevadas classes sociais, numa clara mensagem de que não importa a importância que tenhamos em vivos, pois somos todos iguais perante a morte.

O túmulo de D. Manuel de Moura Manuel é uma obra-prima de rara sensibilidade e a mais importante peça da capela da Vista Alegre, assim conhecida por estar incluída no complexo do museu da bicentenária fábrica.

A Capela da Vista Alegre, em Ílhavo, Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, comunicação dedicada à Nossa Senhora da Penha de França, por Hugo Calão, mestre em História e Património pela Universidade do Porto e sobre o escultor francês Claude Laprade por Sílvia Ferreira doutorada em Historia pela Universidade de Lisboa. 21-04-2018