segunda-feira, 23 de junho de 2014

Párocos de Ílhavo: Pe. João Maria Carlos 1948-1949

O Pe. João Maria Carlos nasceu em Outubro de 1900 na Gafanha da Nazaré, nessa data ainda pertença da Paróquia de Ílhavo. Frequentou o seminário de Coimbra sendo ordenado na Capela do referido seminário por D. Manuel luis Coelho da Silva a 11 de Março de 1933.  Foi nomeado pároco da Paroquia de Dormes e de Paio Mendes em 7 de Agosto de 1933. Em 7 de Fevereiro de 1934 passou a coadjutor da Paroquia de Vagos, sendo nomeado pároco do troviscal e da Mamarrosa a 18 de Junho de 1935. Em 6 de Dezembro de 1936 regressa novamente a coadjutor em Vagos, sendo nomeado a 30 de Novembro de 1937 pároco de Valongo do Vouga e de Lamas do Vouga. Foi nomeado pároco de Ilhavo a 23 de Abril de 1948, paroquiando até 29 de Setembro de 1949, altura em que é nomeado pároco da Murtosa onde a 13 de Novembro de 1950 é nomeado Arcipreste. Faleceu a 6 de Novembro de 1957 na Casa de saude de Coimbra na rua da Sofia, apos uma operaçao, sendo sepultado na Gafanha da Nazare.

Párocos naturais de Ílhavo: Pe. João Vieira Resende

O Pe. João Vieira Resende nasceu em Ílhavo em 7 de Março de 1881, sendo irmão das senhoras Maria do Carmo Vieira Resende e Matilde Vieira Resende. Depois de ter cursado teologia no Seminário de Coimbra, foi ordenado presbítero em 22 de Dezembro de 1906 por D. Manuel Correia de Bastos Pina. Foi, seguidamente, capelão de Ouca, Gafanha da Nazaré e Vale de Ílhavo. Paroquiou depois Vila Verde até 1916 e novamente voltou a ser capelão de Vale de Ílhavo e da Ermida até 1921, data em que lhe foi entregue a paroquialidade de Vagos. Em peregrinação, foi a Roma em 1925 e a Lourdes em 1927. No ano de 1928 foi nomeado primeiro pároco da nova Paróquia da Gafanha da Encarnação, desmembrada da Paróquia de Ílhavo, onde paroquiou até 1948 altura em que fixou residência na sua casa de Vale de Ílhavo. Foi autor da obra " A Monografia da Gafanha", obra editada duas vezes e subsidiada pelo Instituto de Alta Cultura, por proposta do Dr. Paiva Boléo, sendo um profícuo interessado por assuntos toponímicos e de ciências naturais e frequente colaborados do jornal "O Ilhavense" e da revista "Arquivo do Distrito de Aveiro". Após doença prolongada em Coimbra, faleceu na sua residência de Vale de Ílhavo no dia 13 de Outubro de 1959.




Párocos de Ílhavo: Pe. Alberto Tavares de Sousa 1944-1948

O Pe. Alberto Tavares de Sousa nasceu na Murtosa a 12 de Abril de 1908. Frequentou o seminário da Torre da Marca, de Vilar e o seminário da Sé do Porto. Foi ordenado sacerdote na Sé do porto por D. António Augusto de Castro Meireles a 19 de Outubro de 1930. Anterioprmente já exercia funções de secretário do bispo do porto desde Novembro de 1928. A 9 de Janeiro de 1931 foi nomeado pároco de Santa Marinha de Real e de São Pedro do Paraíso. Em 14 de Setembro de 1937 transferido para coadjutor da Paróquia da Murtosa sendo nomeado a 27 de Outubro de 1939 como primeiro pároco da Paróquia de Pardelhas, freguesia desmembrada da Paróquia da Murtosa nesta data. A 6 de Outubro de 1944, é nomeado pároco de Ílhavo onde permaneceu até 23 de Abril de 1948. Nesta data regressa à paroquia de Pardelhas paroquiando até 11 de Dezembro de 1958, exercendo apartir de 1950 o cargo de director do Externato de são joão de brito na Murtosa, e o múnus de professor de Religião e moral até 1959. Entre Janeiro de 1962 e Junho de 1963 foi professor do ensino secundário no Externato de Oliveira do Bairro. Faleceu em Pardelhas ajudando no serviço pastoral das freguesias da Murtosa.

Párocos de Ílhavo: Pe. Basílio Jorge Ribeiro 1924-1944

O Pe. Basílio Jorge Ribeiro nasceu em Mira a 3 de Maio de 1863, na altura ainda pertença da Diocese de Aveiro. Frequentou o seminário de Coimbra fazendo a sua ordenação sacerdotal em Julho de 1888 na Sé Nova daquela cidade, realizada por D. Manuel Correia de Bastos Pina.
Em 1916 encontrava-se pároco de Vagos, onde tinha sido coadjutor. Em 24 de Abril de 1924 é nomeado pároco de Ílhavo, ascendendo a Arcipreste de Ílhavo em 11 de Junho do mesmo ano. A 6 de Outubro de 1944 deixou de paroquiar por falta de saúde falecendo em Ílhavo a 22 de Outubro de 1950. 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Virgem do Rosário de Fátima em Ílhavo: apontamentos


pormenor da imagem da Virgem do Rosário de Fátima
Igreja paroquial de Ílhavo
José Ferreira Thedim, 1957
Maio, mês de Maria, mãe de Jesus, rainha dos anjos, estrela da manhã, refúgio dos pecadores, e a nossa mãe do céu.

Iniciamos esta rubrica sobre o património da Paróquia de São Salvador de Ílhavo dando destaque à devoção da Virgem Maria em Ílhavo, com especial enfoque na imagem da Virgem do Rosário de Fátima, que celebrará em 2017 o centenário da sua aparição.

Jardim à beira-mar da Europa, não deve surpreender que fosse Portugal escolhido para ser a Terra de Santa Maria, consagrando-lhe devoção o nosso primeiro rei e os monarcas vindouros.

De entre as primeiras representações da Virgem Maria no mundo, segundo a tradição, crê-se que em Portugal se situe a mais antiga representação. Desde o fim da romanização e com o início da cristandade, ainda durante a vida da Virgem Maria, que Portugal é apontado como um lugar de aparições e devoção, muito por intercessão da viagem de evangelização do Apóstolo São Tiago pela Hispânia. Segundo a lenda, chegando às terras onde havia de formar-se a Vila de Guimarães, o apóstolo São Tiago passando por num santuário pagão dedicado à Deusa Ceres purificou-o e consagrou-o aos mistérios cristãos, erguendo nele um altar com a imagem da Virgem (Nossa Senhora da Oliveira), imagem que no século X a Condessa Mumadona Dias fez transportar para o mosteiro que edificou em sua honra.

Também pelos fins do século X o nosso território da beira-mar, entre Douro e Vouga, aparece com a designação especial de Terra de Santa Maria, e povoado de lugares de culto e ermidas dedicadas à Virgem.
 

De todas as lendas e tradições, a que nos refere da primeira imagem esculpida da Virgem é a da aparição de Nossa Senhora da Nazaré. Crê-se que esta imagem foi esculpida pelas mãos do próprio São José, em presença do modelo vivo, e foi pintada pelo evangelista São Lucas. Foi passada a São Jerónimo que a enviou a Santo Agostinho. Ofereceu-a este, a um mosteiro de Ermitas perto de Mérida, capital da Lusitânia. Dali a trouxe o último rei dos Godos D. Rodrigo, depois da batalha de Guadalete e depositou-a naquele alto rochedo sobranceiro ao mar da Nazaré, onde em 1182 D. Fuas Roupinho a encontrou, e lhe mandou erigir uma ermida como voto de ter escapado ao famoso acidente vulgarizado nas estampas. Inúmeros escritores apontam esta imagem da Virgem Maria como a mais antiga, e mais chegada aos Apóstolos, do mundo.

O primeiro registo escrito de festa dedicada à Virgem Maria na Lusitânia surge-nos já no ano 656 pelo testemunho do 10º concílio de Toledo, onde estiveram presentes os bispos Cesário de Lisboa, Zózimo de Évora, Potâmio de Braga, Frutuoso de Dume e Flávio do Porto.

Em Ílhavo, a devoção à Virgem crê-se antiquíssima, antes da nacionalidade. A paroquial com invocação de São Salvador e uma primitiva ermida dedicada a São Cristóvão são deste facto testemunho.

O culto à Virgem ganhou novo fulgor, com as aparições de 13 de Maio e 13 de Outubro de 1917, quando a Virgem Maria apareceu na Cova da Iria em Fátima aos três pastorinhos. Lembramos que na altura das aparições era vigário geral do patriarca de Lisboa o nosso depois bispo de Aveiro, D. João Evangelista de Lima Vidal, que acompanhou todo o processo,

A primeira capela dedicada à Virgem do Rosário de Fátima em Ílhavo foi a Capela da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, iniciada em Setembro de 1922 e dedicada e benzida a 26 de Março de 1931. Foi seguida, em 1942, pela capela da comunidade da Gafanha de Aquém, com aquisição da imagem nesse ano.

A imagem da Virgem do Rosário de Fátima da comunidade da Légua foi adquirida em Março de 1956, nas Oficinas de escultura de Fânzeres em Braga, assim como a imagem da Virgem e Fátima existente no Lar de São José, a mesma oficina executante da primeira imagem esculpida para Fátima em 1920, da autoria do escultor José Ferreira Thedim.

A Imagem da Virgem do Rosário de Fátima da Igreja paroquial de Ílhavo foi adquirida em Braga, nas Oficinas de Fânzeres em 31 de Outubro de 1957, encomendada pelo pároco da altura, D. Júlio Tavares Rebimbas, mais tarde bispo do Porto. A aquisição desta imagem, precisamente 40 anos após a sua aparição, coincidiu também com a passagem da imagem da Virgem de Fátima que peregrinou pelas paróquias da diocese de Aveiro e que festivamente chegou a Ílhavo no dia 10 de Novembro de 1957, pernoitando em cada uma das comunidades até ao dia 17.
Passagem por Ílhavo da Virgem Peregrina de Fátima em Novembro de 1957
O jornal Família Paroquial do mês de Novembro desse ano informa que já se encontrava em Ílhavo a nova imagem, modelada e esculpida em madeira de cedro brasileiro com 130cm, conforme as indicações da irmã Lúcia de Jesus, testemunha ocular da aparição. Segundo o seu testemunho de 8 de Dezembro de 1941, a Virgem encomendada para Ílhavo, a Virgem do Coração Imaculado de Maria, é a imagem mais parecida com a visão que tiveram os três pastorinhos em Fátima. A imagem foi colocada provisoriamente no altar das Almas da Igreja Paroquial, transitando mais tarde para apoio em pedra, na lateral direita da capela-mor, onde se encontra à veneração.

Hugo Cálão Mestre em História e Património

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

São Francisco de Assis em Ílhavo: apontamentos



"Na impossibilidade de abrir as portas dos claustros a todos quantos a ele

acorriam de todas as partes, atraídos por ele, desejosos de formarem-se na sua escola,
Francisco fundou uma verdadeira terceira ordem, a dos Terceiros.
O que nunca fundador algum de Religião jamais imaginara – tornar-se a vida conventual
praticável a todos – Francisco foi o primeiro que tal concebeu e realizou com grande sucesso"

P.e Bartolomeu Ribeiro, Os Terceiros Franciscanos Portugueses, 1952.


 Filho de um rico mercador de panos, Francisco (embora baptizado João, recebe essa alcunha por ser filho de mãe francesa) nasceu em Assis, em 1181. É uma das maiores figuras da história da Igreja. Depois de uma juventude abastada, converteu-se à mensagem evangélica, abandonando todas as riquezas paternas. Funda uma Ordem religiosa mendicante, que baptiza humildemente de Ordem dos Frades Menores e que viria a ser aprovada pelo Papa Inocêncio III. Em 1223 festejou a noite de Natal num bosque de Greccio, com missa solene, perante um presépio armado no meio das árvores. 
São Francisco de Assis
Igreja paroquial de São Salvador de Ílhavo
barro policromado e dourado
83 alt x 53 larg x 28 prof
PSSILH 0030
Os Franciscanos, após este acontecimento, tornaram-se nos grandes divulgadores do culto do Presépio, popularizando-o. Consumido pela doença que o contaminou numa das suas viagens refugiou-se, em 1224, numa localidade próxima de Arezzoo, onde teve uma visão de Cristo, de que lhe ficaram os estigmas. Faleceu em 1226, tendo sido canonizado pelo papa Gregório IX em 1228.
  Foi, desta forma um dos santos mais populares de toda a Cristandade, fundando a Ordem dos Frades Menores, da qual surgiriam depois diversos ramos e reformas (Observantes, Conventuais, Capuchinhos, Menores da Imaculada), outras ordens (Clarissas, Ordem Terceira), diversas comunidades e congregações.
 
   A sua presença em Portugal ocorreu bastante cedo, desde 1217, portanto ainda em vida de S. Francisco, recebendo apoio de reis e infantas, onde se destacaram as Províncias da Arrábida (1539) e de Santo António (1568), da qual derivou a Província da Conceição (1706).
 
   Em Ílhavo, a sua devoção atingiu maior culto quando da instalação definitiva da Ordem Terceira de São Francisco de Ílhavo na demolida Capela das Almas, mandada construir em 1760 pelo Prior João dos Santos, e sagrada em 1771, da qual subsistem as representações mais significativas do santo: a de origem em barro do século XVII e duas processionais ditas de roca do século XIX.  
 
A escultura de vulto do século XVII, em barro policromado e dourado, aqui apresentada, que esteve ao culto inicialmente na Igreja paroquial de Ílhavo, sendo descrita nas informações de 1721 e de 1758, depois transferida para a Capela das Almas, e mostra o Santo com o hábito franciscano e estigmatizado, de pé em posição frontal, abrindo os braços. Apresenta tonsura e o rosto alongado, de feições que deixam transparecer uma expressão de sereno êxtase, acentuada pelo olhar cândido e complacente.

As outras duas esculturas, ditas de roca, sairiam em andores na Procissão das Cinzas em Ílhavo e creem-se atribuídas ao escultor ilhavense Anselmo Ferreira, outrora recolhidas na Capela das Almas. Representam São Francisco recebendo os estigmas e São Francisco com a cruz, hoje mutiladas.

São Francisco recebendo os estigmas
Igreja Paroquial de Ílhavo
século XIX - atribuído a Anselmo Ferreira
PSSILH 0043
São Francisco da cruz
Escultura de vulto de roca, processional
madeira policromada
Provenientes da Capela
das Almas de Ílhavo
   É talvez o santo mais popular, logo a seguir a Santo António, graças à sua proximidade com o povo, os votos de pobreza e humildade, bem como do prestígio alcançado por muitos dos seus seguidores (entre os quais o próprio santo lisboeta). O grande número de casas e conventos, que se estabelecem desde o século XIII, fomentou naturalmente a vastíssima produção de imagens do santo, e dos diversos episódios da sua vida e lendas. Com uma rica iconografia, encontra-se geralmente dividida em duas fases - a primeira, quase exclusivamente italiana, decorre entre os séculos XIII e XVI; sendo a segunda, posterior ao Concílio de Trento, e mais europeia. O episódio mais divulgado foi justamente o milagre da Estigmatização de S. Francisco (festejado no antigo Calendário Litúrgico a 17 de Setembro), ocorrido em 1224, no eremitério do Monte la Vernia, dando origem ao seu atributo mais conhecido.
Arquivo da Ordem Terceira de São Francisco de Aveiro
OTSFAVR Livro de Profissão de Irmãos 1726-1783
registo de entradas para Ílhavo

 

   Com uma iconografia abundante, São Francisco é representado envergando o hábito de Frade Menor, atado na cintura por um cordão com três nós, símbolos dos votos de pobreza, castidade e obediência, da sua ordem. Têm os estigmas nas mãos e nos pés. Inicialmente surgia com barba, mas a partir de Giotto aparece imberbe, tendo a Contra-Reforma regressado às suas representações com barba e expressão dolorosa. Os atributos menos frequentes são a cruz ou o crucifico na mão, o livro da regra, um crânio, um pássaro na mão, um lobo aos pés, colocado junto de um presépio.
 
A Igreja faz memória do fundador dos Franciscanos no dia 4 de Outubro.








Santa Clara PSSILH 0045
Escultura de vulto de roca, processional
em madeira policromada
séc. 18 autor desconhecido
A Procissão das Cinzas de Ílhavo: andores e imagens de vestir
Procissão da Cinzas em Ílhavo, andor de Santa Clara
imagem de roca processional
A paróquia de São Salvador de Ílhavo, por extinção da Ordem Terceira, conta com um legado patrimonial de grande riqueza artística, iconográfica e devocional. Deste legado fazem parte um conjunto de imagens de roca.
Rainha Santa Isabel PSSILH 0044
Escultura de vulto de roca, processional
em madeira policromada
séc. 18 autor desconhecido

 

   A organização de fiéis em fraternidades de irmãos da penitência na família franciscana, foi potenciada desde o primeiro momento pelo próprio São Francisco de Assis, sendo estes enquadrados numa estrutura singular, a Venerável Ordem Terceira de São Francisco. Desta forma, a Ordem Terceira, primeiro fundada em Aveiro c. de 1670, desde 1726 aceitou irmãos oriundos de Ílhavo, que, a partir de meados do século seguinte, c. de 1760, se começaram a autonomizar, reunindo na Capela das Almas de Ílhavo, vulgarmente denominada na documentação por Capela de Santo Ivo de Ílhavo.
A procissão das Cinzas era o ponto principal no calendário.


Virgem da Soledade PSSILH 0042
Escultura de vulto de roca, processional
em madeira policromada
séc. 18 autor desconhecido











Se em Aveiro, por convivência vizinha com o Convento de Santo António, o ritual processional praticado na solenidade da Procissão dos Terceiros era acalentado pelos leigos franciscanos e egressos deste extinto Convento, em Ílhavo esta pratica ganhou novo fulgor com o ingresso de algumas da imagens do extinto Convento da Madre de Deus de Sá, Convento feminino da Ordem Terceira de São Francisco demolido em Aveiro em 1885.
Pelo que algumas das imagens de roca (imagens de vestir) antecedem em antiguidade às imagens de Aveiro presentes na mesma solenidade.  Nesta procissão Terceiros Franciscanos  mostravam um programa iconográfico, onde cenas relevantes do franciscanismo, eram capazes de educar os fieis de forma

Santo Ivo PSSILH 0046
Escultura de vulto de roca, processional
em madeira policromada
autor desconhecido
simplificada para o conhecimento da história da Venerável Ordem, seu fundador e seus santos.
Para destacar esse realismo, as feições das esculturas e a disposição destas em grupos escultórios, apresentavam uma dinâmica teatral, que reforçava ainda mais a narrativa proposta, potenciando a emoção nos crentes.
Nesta figuravam o andor de Santo Ivo, o andor de Santa Clara, o andor da Rainha Santa Isabel, o andor de São Francisco recebendo os estigmas e o andor de São Francisco da cruz.

 Estas imagens reúnem um considerável conjunto de peças de vestir e ornamentos associados, discriminadamente:

Conjunto de vestir Senhor dos Passos (4 peças): alva branca de algodão rendada, túnica de gorgorão de seda roxa bordada em fio metálico a ouro, túnica nova de veludo roxo com galão dourado em ziguezague nas mangas decorada com missangas pretas e almofada de veludo roxo bordada a matiz em fio policromo.

Conjunto de vestir Virgem da Soledade (15 peças): três camisas interiores brancas, um véu de renda, um manto de cetim azul bordado a ouro e vidrilhos, duas túnica roxa, uma túnica de veludo roxa com galão, um punho de veludo roxo com galão, uma túnica de cetim branca, dois punhos de cetim branco, um cinto de veludo roxo com galão, um lenço de mão e um escapulário bordado a fio metálico.

Conjunto de vestir Santo Ivo (17 peças): uma batina preta com mangas; uma batina preta sem mangas; duas mangas pretas de batina, um roquete branco de renda bordada, duas mangas bordadas do roquete, uma gola sobre-roquete preto com botões, duas golas de batina, duas camisas brancas, quatro punhos de camisa brancos, uma camisa interior sem mangas preta.

Conjunto de vestir Rainha Santa Isabel (6 peças): um manto verde-escuro de veludo bordado a fio metálico, uma túnica verde-escuro de veludo bordada a fio metálico, uma camisa branca sem mangas, um saiote branco bordado a fio metálico, um cinto branco e laço franjado a ouro.

Conjunto de vestir Santa Clara (5 peças): uma camisa branca, uma túnica preta, uma coifa de hábito branco, uma faixa branca da coifa, uma capa castanho claro, uma capa preta.

Conjunto de vestir São Francisco de Assis (4 peças): duas túnicas castanhas e dois cordões.


© Hugo Cálão, 2013
 
 

 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Mais um documento histórico de Ílhavo para venda: Carta de Brasão de Armas de Manuel da Maia Vieira



Descrição: Carta de Brasão de Armas de Manuel da Maia Vieira

DE MANOEL DA MAYA VIEYRA Sargento Mor das Ordenanças da Villa de Ilhavo Comarca de Aveiro. Passada em nome de D. Maria I por Antonio Rodrigues Leão seu Principal Rey de Armas, em Lisboa, 6 de Abril de 1785. Escudo esquartelado: no primeiro quartel as Armas dos Mayas que são em campo vermelho huma de negro Armada e gotada de ouro. No segundo as dos Vieyras em campo vermelho seis vieiras de ouro em duas pallas. No terceiro as dos Pinhos que são em campo de prata cinco pinheiros de sua cor com pinhas de ouro. No quarto as dos Pereiras em campo vermelho hua Cruz de prata florida e vazia do campo. In 4.º de 4 folhas de pergaminho.



Categoria: Livros e Manuscritos

Estimativas

€ 500.00 - € 1,000.00

Leiloeira São Domingos
Calçada João do Carmo, 31 4150-426 Porto - Portugal

geral@leiloeirasaodomingos.pt

+351 226 106 560 / 266       



História: Solar dos Maias


Rua de Alqueidão, 3830-148 Ílhavo
GPS: 40º36’10.3428’’ | -8º40’8.2956’’



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Possuindo no alto da sua frontaria um brasão em escudo oval datado de 1797, com os símbolos das nobres famílias Maia, Vieira, Pinho e Pereira, o Solar dos Maias destaca-se da paisagem urbana de Ílhavo desde os finais do século XVIII.

Localizado na Rua de Alqueidão, este Paço brasonado ainda conserva as suas linhas curvas setecentistas, com bonitas sacadas, uma escadaria lateral e imponentes portões de ferro.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Azulejos da Capela da Vista Alegre assinados por Gabriel del Barco e datado de 1694

Embora já hovesse atribuições de autoria dos azulejos da Capela da Vista Alegre em Ílhavo ao azulejador e pintor Gabriel del Barco (Vd. Meco, José, "Gabriel del Barco na região de Lisboa", Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa", 1979), foi identificada, por Rosário Salema de Carvalho, a assinatura de Gabriel del Barco numa das secções do revestimento azulejar da Capela de Nossa Senhora da Penha de França, na Vista Alegre, em Ílhavo. Encontra-se no canto inferior esquerdo da secção que representa a Fuga para o Egipto, situada do lado da Epístola, sobre a porta lateral. A assinatura - G.L B. co - é seguida da indicação do ano da realização da obra - 1694.

O revestimento, atribuído por vários investigadores a este pintor espanhol, deverá ter sido encomendado pelo Bispo de Miranda D. Manuel de Moura Manuel (1632-1699), cujo brasão se encontra pintado nas portas laterais e cujo túmulo se encontra na capela-mor.

Trata-se, pois, de mais uma obra da autoria de Gabriel del Barco a juntar a tantas outras já conhecidas, e que podem ser consultadas na ficha relativa a este pintor no Az Infinitum - Sistema de Referência e Indexação de Azulejo.


A descoberta, feita no âmbito dos estudos que a investigadora tem vindo a desenvolver sobre a pintura do azulejo do período de transição e Ciclo dos Mestres, demonstra, também, como o recurso às tecnologias hoje ao dispor da História da Arte pode contribuir para conhecer melhor um período tão significativo da história da azulejaria portuguesa. Na verdade, apenas a ampliação de imagens digitais permitiu identificar a assinatura e o ano, localizados muito acima da linha de visão e que haviam passado despercebidos.
 
pintor de azulejos de origem espanhola, que trabalhou em Portugal no final do século XVII e inícios do seguinte, introduzindo a pintura figurativa azul e branca, à qual conferiu grande notoriedade, através de um desenho simples mas trabalhado em pinceladas de forte expressividade. Datado de 1694, este é considerado um trabalho de grande significado no contexto da história da azulejaria portuguesa, tal como o trabalho na Quinta de Sinel de Cordes ou de Nossa Senhora da Conceição
Barcarena, uma vez que se pensa constituir uma das experiências iniciais a azul e branco, e por isso mesmo ainda apegada a modelos polícromos, como os da igreja de Carcavelos, do mesmo autor (MECO, 1979, p. 107).
De facto, Gabriel del Barco chegou a Portugal como pintor de tectos, tendo desenvolvido esta atividade durante algum tempo. Razão pela qual se encontram atribuídas a este artista as pinturas a têmpera da abóbada e ilhargas da sacristia desta Capela, representando árvore de Jessé, figuras femininas e albarradas florais.

Segundo documento existente no Tombo da Fábrica da Vista Alegre, visto por Marques Gomes (1925), foi fabriqueiro e administrador da Capela da Vista Alegre em 1762 o Rev. D. Nicolau Giliberti professor e, reitor do Seminário de Coimbra e, mais tarde, professor do Colégio dos Nobres, em Lisboa, que parece ter sido quem mandou “aplicar os azulejos e proceder a outros melhoramentos. 

Marques Gomes conjetura que D. Nicolau Giliberti tivesse realizado melhoramentos importantes na Capela da Vista Alegre, tais como o azulejamento das paredes e pinturas a fresco da abóbada, embora hoje saibamos que os azulejos interiores datam da génese da Capela, obra de Gabriel del Barco de 1694. 

Possivelmente as obras realizadas seriam, antes sim, o acabar das duas torres. Este distinto sacerdote napolitano, durante bastantes anos ao serviço de Portugal, a quem se deve a vinda dos famosos arquitetos João Francisco Tamossi e João Giacomo Azollini  que trabalharam na construção do Seminário de Coimbra, a quem se deve em grande parte da sua fundação e construção. 

A  D. Nicolau Giliberti se deveria também a fundação de um seminário próximo da Capela da Vista Alegre, projeto por si acalentado e para o qual muito trabalhou, e melhoramento que beneficiaria muito o clero local, intento que não chegou a ver realizado pela sua retirada para Lisboa, chamado pelo Marques de Pombal para assumir a direção do Colégio de Nobres que este criara. 

Marques Gomes conjetura também que as pinturas a fresco do Seminário de Coimbra são trabalho de Pascoal Parente  e muito semelhantes ás da Capela da Vista Alegre, e igualmente a sua execução encomendada por Giliberti. Uma vez mais, em leitura atual comparativa da obra decorativa de Gabriel del Barco, conjeturamos que sejam deste a autoria dos frescos.


Outras obras atribuidas e de Gabriel del Barco:

Painel de azulejos com a representação de São João Baptista
(Hospital de São José, Lisboa)
Pintor, Atribuído (SIMÕES - Azulejaria em Portugal no século XVIII, p. 205)


Revestimento cerâmico da nave da Igreja
(Igreja do Convento dos Lóios, Arraiolos)
Pintor, Assinado, capela-mor e portal [azulejo assinado e datado, descontextualizado, junto ao portal principal, apenas com parte da assinatura - briel del / arco 1699]


Revestimento cerâmico da Capela de São João Evangelista
(Igreja do Convento dos Lóios, Arraiolos)
Pintor, Assinado, capela-mor e portal


Revestimento cerâmico da Capela de São João Baptista
(Igreja do Convento dos Lóios, Arraiolos)
Pintor, Assinado, capela-mor e portal


Revestimento cerâmico da capela-mor
(Igreja do Convento dos Lóios, Arraiolos)
Pintor, Assinado, capela-mor e portal


Painéis de azulejos com iconografia de Santa Clara
(Hospital de Santa Marta, Lisboa)
Pintor, Atribuído (1979 - MECO - "Azulejos de Gabriel del Barco [...]", p. 113; 1979 -MECO - "O pintor de azulejos [...]", p. 65; 1984 - MECO - "Azulejos de Lisboa" [...], p. 53; 1989 - MECO - Azulejaria Portuguesa, p. 67; 1993 - MECO - O Azulejo em Portugal, p. 216; 1994 - MECO - "Lisboa Barroca [...]", p. 327; 1979 - SIMÕES, p. 24; 1996 - VELOSO; ALMASQUÉ - Hospitais Civis [...], p. 91)


Painel de azulejos representando a Adoração dos pastores
(Hospital de São José, Lisboa)
Pintor, Atribuído (MECO, 1979, p. 64; IDEM, 1981, p. 42)


Revestimento cerâmico da sala da Confraria do Santíssimo Sacramento
(Igreja de São Mamede, Évora)
Pintor, Assinado - parede 1, nível 1, secção 1

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Património da Paróquia de São Salvador de Ílhavo

O património da Paróquia de São Salvador de Ílhavo é sem dúvida a história continuada e a mais real prova da vida religiosa e social da cidade. A história de Ílhavo não se escreveria sem este. Por isso, como registo físico da nossa memória, é essencial a sua conservação, valorização e divulgação. Este espaço servirá, na nossa modéstia, este propósito. Neste primeiro artigo, faremos um apanhado histórico da Igreja Matriz de Ílhavo, pois esta, foi e, é o centro da religiosidade da paróquia.

A Matriz terá sido sempre onde actualmente se encontra, à qual se conhece cerca de 500 anos de pastoreio de almas.

O primeiro registo data do priorado iniciado em 1541, do qual existiria um livro de baptismos de 1558, hoje em falta no Arquivo Distrital de Aveiro. Mas a referência mais completa está registada nas Informações Paroquiais de 1721 e 1758 publicadas pelo nosso conterrâneo António Rocha Madahíl, no artigo “Ílhavo no séc. XVIII”. É exactamente no século XVIII que a Matriz de Ílhavo irá ampliar-se na arquitectura que hoje conhecemos. Em 1733 reedifica-se e amplia-se a capela-mor, “por ser a antiga muito pequena e desproporcionada ao corpo da igreja, substituindo-se o altar antigo por retábulo e tribuna de talha moderna”, como refere na informação de 1758 o reverendo João Martins dos Santos, prior desde 1756.

Do retábulo primitivo, anterior ao actual, restam partes de tábuas policromadas e douradas convertidas em móvel na sacristia, existente no anteparo do retábulo da capela-mor.

Na informação paroquial de 1758 é descrita, também, grande parte da imaginária e escultura de vulto. Conclui-se, portanto, anterior a esta data a escultura de vulto do Divino Salvador e São João Baptista, em pedra policromada, do final do século XVI, a imagem de vulto da Nossa Senhora do Rosário em madeira, as imagens de Santa Luzia, de S. Brás, em pedra policromada, uma imagem de São Francisco, em barro, um Santo Amaro de madeira e São Sebastião, de pedra, um Ecce Homo, conhecido como o Senhor da Cana-Verde, em madeira policromada, do século XVI, uma imagem de Cristo crucificado, conhecido como Senhor Jesus dos Navegantes e um Cristo com cruz às costas, conhecido como Senhor dos Passos, ambos do séc. XVII, em madeira policromada.

A Igreja Matriz com a sua nova ampliada arquitectura é benzida e inaugurada em 1785

Da antiga tribuna do primitivo retábulo existem também um São Cristóvão, de barro e um Santo André, de pedra policromada, do mesmo porte e antiguidade das imagens quinhentistas do Divino Salvador e São João, e que devido à ampliação de 1733, deixaram de ter lugar no actual retábulo-mor.

Este património cultural deve conduzir as pessoas ao encontro com a vida da Igreja e deve mostrar como, ao longo dos séculos, essa mesma vida se foi adornando de obras de arte insignes, ao mesmo tempo que se coadunava com o ambiente cultural.
Através de um caminho artístico qualificado, conduzir-se-ão os apreciadores na direcção dupla da memória deste património e das circunstâncias da vida da igreja, onde os objectos sacros e o seu culto se deveram incluir.

Só neste sentido é que os objectos são, não só objectos materiais, mas bens criados por uma comunidade que organiza no tempo a sua própria ideologia cristã.

 Hugo Cálão, in jornal “O Ilhavense”de 21 Fevereiro 2006