quinta-feira, 24 de abril de 2014

Virgem do Rosário de Fátima em Ílhavo: apontamentos


pormenor da imagem da Virgem do Rosário de Fátima
Igreja paroquial de Ílhavo
José Ferreira Thedim, 1957
Maio, mês de Maria, mãe de Jesus, rainha dos anjos, estrela da manhã, refúgio dos pecadores, e a nossa mãe do céu.

Iniciamos esta rubrica sobre o património da Paróquia de São Salvador de Ílhavo dando destaque à devoção da Virgem Maria em Ílhavo, com especial enfoque na imagem da Virgem do Rosário de Fátima, que celebrará em 2017 o centenário da sua aparição.

Jardim à beira-mar da Europa, não deve surpreender que fosse Portugal escolhido para ser a Terra de Santa Maria, consagrando-lhe devoção o nosso primeiro rei e os monarcas vindouros.

De entre as primeiras representações da Virgem Maria no mundo, segundo a tradição, crê-se que em Portugal se situe a mais antiga representação. Desde o fim da romanização e com o início da cristandade, ainda durante a vida da Virgem Maria, que Portugal é apontado como um lugar de aparições e devoção, muito por intercessão da viagem de evangelização do Apóstolo São Tiago pela Hispânia. Segundo a lenda, chegando às terras onde havia de formar-se a Vila de Guimarães, o apóstolo São Tiago passando por num santuário pagão dedicado à Deusa Ceres purificou-o e consagrou-o aos mistérios cristãos, erguendo nele um altar com a imagem da Virgem (Nossa Senhora da Oliveira), imagem que no século X a Condessa Mumadona Dias fez transportar para o mosteiro que edificou em sua honra.

Também pelos fins do século X o nosso território da beira-mar, entre Douro e Vouga, aparece com a designação especial de Terra de Santa Maria, e povoado de lugares de culto e ermidas dedicadas à Virgem.
 

De todas as lendas e tradições, a que nos refere da primeira imagem esculpida da Virgem é a da aparição de Nossa Senhora da Nazaré. Crê-se que esta imagem foi esculpida pelas mãos do próprio São José, em presença do modelo vivo, e foi pintada pelo evangelista São Lucas. Foi passada a São Jerónimo que a enviou a Santo Agostinho. Ofereceu-a este, a um mosteiro de Ermitas perto de Mérida, capital da Lusitânia. Dali a trouxe o último rei dos Godos D. Rodrigo, depois da batalha de Guadalete e depositou-a naquele alto rochedo sobranceiro ao mar da Nazaré, onde em 1182 D. Fuas Roupinho a encontrou, e lhe mandou erigir uma ermida como voto de ter escapado ao famoso acidente vulgarizado nas estampas. Inúmeros escritores apontam esta imagem da Virgem Maria como a mais antiga, e mais chegada aos Apóstolos, do mundo.

O primeiro registo escrito de festa dedicada à Virgem Maria na Lusitânia surge-nos já no ano 656 pelo testemunho do 10º concílio de Toledo, onde estiveram presentes os bispos Cesário de Lisboa, Zózimo de Évora, Potâmio de Braga, Frutuoso de Dume e Flávio do Porto.

Em Ílhavo, a devoção à Virgem crê-se antiquíssima, antes da nacionalidade. A paroquial com invocação de São Salvador e uma primitiva ermida dedicada a São Cristóvão são deste facto testemunho.

O culto à Virgem ganhou novo fulgor, com as aparições de 13 de Maio e 13 de Outubro de 1917, quando a Virgem Maria apareceu na Cova da Iria em Fátima aos três pastorinhos. Lembramos que na altura das aparições era vigário geral do patriarca de Lisboa o nosso depois bispo de Aveiro, D. João Evangelista de Lima Vidal, que acompanhou todo o processo,

A primeira capela dedicada à Virgem do Rosário de Fátima em Ílhavo foi a Capela da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, iniciada em Setembro de 1922 e dedicada e benzida a 26 de Março de 1931. Foi seguida, em 1942, pela capela da comunidade da Gafanha de Aquém, com aquisição da imagem nesse ano.

A imagem da Virgem do Rosário de Fátima da comunidade da Légua foi adquirida em Março de 1956, nas Oficinas de escultura de Fânzeres em Braga, assim como a imagem da Virgem e Fátima existente no Lar de São José, a mesma oficina executante da primeira imagem esculpida para Fátima em 1920, da autoria do escultor José Ferreira Thedim.

A Imagem da Virgem do Rosário de Fátima da Igreja paroquial de Ílhavo foi adquirida em Braga, nas Oficinas de Fânzeres em 31 de Outubro de 1957, encomendada pelo pároco da altura, D. Júlio Tavares Rebimbas, mais tarde bispo do Porto. A aquisição desta imagem, precisamente 40 anos após a sua aparição, coincidiu também com a passagem da imagem da Virgem de Fátima que peregrinou pelas paróquias da diocese de Aveiro e que festivamente chegou a Ílhavo no dia 10 de Novembro de 1957, pernoitando em cada uma das comunidades até ao dia 17.
Passagem por Ílhavo da Virgem Peregrina de Fátima em Novembro de 1957
O jornal Família Paroquial do mês de Novembro desse ano informa que já se encontrava em Ílhavo a nova imagem, modelada e esculpida em madeira de cedro brasileiro com 130cm, conforme as indicações da irmã Lúcia de Jesus, testemunha ocular da aparição. Segundo o seu testemunho de 8 de Dezembro de 1941, a Virgem encomendada para Ílhavo, a Virgem do Coração Imaculado de Maria, é a imagem mais parecida com a visão que tiveram os três pastorinhos em Fátima. A imagem foi colocada provisoriamente no altar das Almas da Igreja Paroquial, transitando mais tarde para apoio em pedra, na lateral direita da capela-mor, onde se encontra à veneração.

Hugo Cálão Mestre em História e Património

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

São Francisco de Assis em Ílhavo: apontamentos



"Na impossibilidade de abrir as portas dos claustros a todos quantos a ele

acorriam de todas as partes, atraídos por ele, desejosos de formarem-se na sua escola,
Francisco fundou uma verdadeira terceira ordem, a dos Terceiros.
O que nunca fundador algum de Religião jamais imaginara – tornar-se a vida conventual
praticável a todos – Francisco foi o primeiro que tal concebeu e realizou com grande sucesso"

P.e Bartolomeu Ribeiro, Os Terceiros Franciscanos Portugueses, 1952.


 Filho de um rico mercador de panos, Francisco (embora baptizado João, recebe essa alcunha por ser filho de mãe francesa) nasceu em Assis, em 1181. É uma das maiores figuras da história da Igreja. Depois de uma juventude abastada, converteu-se à mensagem evangélica, abandonando todas as riquezas paternas. Funda uma Ordem religiosa mendicante, que baptiza humildemente de Ordem dos Frades Menores e que viria a ser aprovada pelo Papa Inocêncio III. Em 1223 festejou a noite de Natal num bosque de Greccio, com missa solene, perante um presépio armado no meio das árvores. 
São Francisco de Assis
Igreja paroquial de São Salvador de Ílhavo
barro policromado e dourado
83 alt x 53 larg x 28 prof
PSSILH 0030
Os Franciscanos, após este acontecimento, tornaram-se nos grandes divulgadores do culto do Presépio, popularizando-o. Consumido pela doença que o contaminou numa das suas viagens refugiou-se, em 1224, numa localidade próxima de Arezzoo, onde teve uma visão de Cristo, de que lhe ficaram os estigmas. Faleceu em 1226, tendo sido canonizado pelo papa Gregório IX em 1228.
  Foi, desta forma um dos santos mais populares de toda a Cristandade, fundando a Ordem dos Frades Menores, da qual surgiriam depois diversos ramos e reformas (Observantes, Conventuais, Capuchinhos, Menores da Imaculada), outras ordens (Clarissas, Ordem Terceira), diversas comunidades e congregações.
 
   A sua presença em Portugal ocorreu bastante cedo, desde 1217, portanto ainda em vida de S. Francisco, recebendo apoio de reis e infantas, onde se destacaram as Províncias da Arrábida (1539) e de Santo António (1568), da qual derivou a Província da Conceição (1706).
 
   Em Ílhavo, a sua devoção atingiu maior culto quando da instalação definitiva da Ordem Terceira de São Francisco de Ílhavo na demolida Capela das Almas, mandada construir em 1760 pelo Prior João dos Santos, e sagrada em 1771, da qual subsistem as representações mais significativas do santo: a de origem em barro do século XVII e duas processionais ditas de roca do século XIX.  
 
A escultura de vulto do século XVII, em barro policromado e dourado, aqui apresentada, que esteve ao culto inicialmente na Igreja paroquial de Ílhavo, sendo descrita nas informações de 1721 e de 1758, depois transferida para a Capela das Almas, e mostra o Santo com o hábito franciscano e estigmatizado, de pé em posição frontal, abrindo os braços. Apresenta tonsura e o rosto alongado, de feições que deixam transparecer uma expressão de sereno êxtase, acentuada pelo olhar cândido e complacente.

As outras duas esculturas, ditas de roca, sairiam em andores na Procissão das Cinzas em Ílhavo e creem-se atribuídas ao escultor ilhavense Anselmo Ferreira, outrora recolhidas na Capela das Almas. Representam São Francisco recebendo os estigmas e São Francisco com a cruz, hoje mutiladas.

São Francisco recebendo os estigmas
Igreja Paroquial de Ílhavo
século XIX - atribuído a Anselmo Ferreira
PSSILH 0043
São Francisco da cruz
Escultura de vulto de roca, processional
madeira policromada
Provenientes da Capela
das Almas de Ílhavo
   É talvez o santo mais popular, logo a seguir a Santo António, graças à sua proximidade com o povo, os votos de pobreza e humildade, bem como do prestígio alcançado por muitos dos seus seguidores (entre os quais o próprio santo lisboeta). O grande número de casas e conventos, que se estabelecem desde o século XIII, fomentou naturalmente a vastíssima produção de imagens do santo, e dos diversos episódios da sua vida e lendas. Com uma rica iconografia, encontra-se geralmente dividida em duas fases - a primeira, quase exclusivamente italiana, decorre entre os séculos XIII e XVI; sendo a segunda, posterior ao Concílio de Trento, e mais europeia. O episódio mais divulgado foi justamente o milagre da Estigmatização de S. Francisco (festejado no antigo Calendário Litúrgico a 17 de Setembro), ocorrido em 1224, no eremitério do Monte la Vernia, dando origem ao seu atributo mais conhecido.
Arquivo da Ordem Terceira de São Francisco de Aveiro
OTSFAVR Livro de Profissão de Irmãos 1726-1783
registo de entradas para Ílhavo

 

   Com uma iconografia abundante, São Francisco é representado envergando o hábito de Frade Menor, atado na cintura por um cordão com três nós, símbolos dos votos de pobreza, castidade e obediência, da sua ordem. Têm os estigmas nas mãos e nos pés. Inicialmente surgia com barba, mas a partir de Giotto aparece imberbe, tendo a Contra-Reforma regressado às suas representações com barba e expressão dolorosa. Os atributos menos frequentes são a cruz ou o crucifico na mão, o livro da regra, um crânio, um pássaro na mão, um lobo aos pés, colocado junto de um presépio.
 
A Igreja faz memória do fundador dos Franciscanos no dia 4 de Outubro.








Santa Clara PSSILH 0045
Escultura de vulto de roca, processional
em madeira policromada
séc. 18 autor desconhecido
A Procissão das Cinzas de Ílhavo: andores e imagens de vestir
Procissão da Cinzas em Ílhavo, andor de Santa Clara
imagem de roca processional
A paróquia de São Salvador de Ílhavo, por extinção da Ordem Terceira, conta com um legado patrimonial de grande riqueza artística, iconográfica e devocional. Deste legado fazem parte um conjunto de imagens de roca.
Rainha Santa Isabel PSSILH 0044
Escultura de vulto de roca, processional
em madeira policromada
séc. 18 autor desconhecido

 

   A organização de fiéis em fraternidades de irmãos da penitência na família franciscana, foi potenciada desde o primeiro momento pelo próprio São Francisco de Assis, sendo estes enquadrados numa estrutura singular, a Venerável Ordem Terceira de São Francisco. Desta forma, a Ordem Terceira, primeiro fundada em Aveiro c. de 1670, desde 1726 aceitou irmãos oriundos de Ílhavo, que, a partir de meados do século seguinte, c. de 1760, se começaram a autonomizar, reunindo na Capela das Almas de Ílhavo, vulgarmente denominada na documentação por Capela de Santo Ivo de Ílhavo.
A procissão das Cinzas era o ponto principal no calendário.


Virgem da Soledade PSSILH 0042
Escultura de vulto de roca, processional
em madeira policromada
séc. 18 autor desconhecido











Se em Aveiro, por convivência vizinha com o Convento de Santo António, o ritual processional praticado na solenidade da Procissão dos Terceiros era acalentado pelos leigos franciscanos e egressos deste extinto Convento, em Ílhavo esta pratica ganhou novo fulgor com o ingresso de algumas da imagens do extinto Convento da Madre de Deus de Sá, Convento feminino da Ordem Terceira de São Francisco demolido em Aveiro em 1885.
Pelo que algumas das imagens de roca (imagens de vestir) antecedem em antiguidade às imagens de Aveiro presentes na mesma solenidade.  Nesta procissão Terceiros Franciscanos  mostravam um programa iconográfico, onde cenas relevantes do franciscanismo, eram capazes de educar os fieis de forma

Santo Ivo PSSILH 0046
Escultura de vulto de roca, processional
em madeira policromada
autor desconhecido
simplificada para o conhecimento da história da Venerável Ordem, seu fundador e seus santos.
Para destacar esse realismo, as feições das esculturas e a disposição destas em grupos escultórios, apresentavam uma dinâmica teatral, que reforçava ainda mais a narrativa proposta, potenciando a emoção nos crentes.
Nesta figuravam o andor de Santo Ivo, o andor de Santa Clara, o andor da Rainha Santa Isabel, o andor de São Francisco recebendo os estigmas e o andor de São Francisco da cruz.

 Estas imagens reúnem um considerável conjunto de peças de vestir e ornamentos associados, discriminadamente:

Conjunto de vestir Senhor dos Passos (4 peças): alva branca de algodão rendada, túnica de gorgorão de seda roxa bordada em fio metálico a ouro, túnica nova de veludo roxo com galão dourado em ziguezague nas mangas decorada com missangas pretas e almofada de veludo roxo bordada a matiz em fio policromo.

Conjunto de vestir Virgem da Soledade (15 peças): três camisas interiores brancas, um véu de renda, um manto de cetim azul bordado a ouro e vidrilhos, duas túnica roxa, uma túnica de veludo roxa com galão, um punho de veludo roxo com galão, uma túnica de cetim branca, dois punhos de cetim branco, um cinto de veludo roxo com galão, um lenço de mão e um escapulário bordado a fio metálico.

Conjunto de vestir Santo Ivo (17 peças): uma batina preta com mangas; uma batina preta sem mangas; duas mangas pretas de batina, um roquete branco de renda bordada, duas mangas bordadas do roquete, uma gola sobre-roquete preto com botões, duas golas de batina, duas camisas brancas, quatro punhos de camisa brancos, uma camisa interior sem mangas preta.

Conjunto de vestir Rainha Santa Isabel (6 peças): um manto verde-escuro de veludo bordado a fio metálico, uma túnica verde-escuro de veludo bordada a fio metálico, uma camisa branca sem mangas, um saiote branco bordado a fio metálico, um cinto branco e laço franjado a ouro.

Conjunto de vestir Santa Clara (5 peças): uma camisa branca, uma túnica preta, uma coifa de hábito branco, uma faixa branca da coifa, uma capa castanho claro, uma capa preta.

Conjunto de vestir São Francisco de Assis (4 peças): duas túnicas castanhas e dois cordões.


© Hugo Cálão, 2013
 
 

 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Mais um documento histórico de Ílhavo para venda: Carta de Brasão de Armas de Manuel da Maia Vieira



Descrição: Carta de Brasão de Armas de Manuel da Maia Vieira

DE MANOEL DA MAYA VIEYRA Sargento Mor das Ordenanças da Villa de Ilhavo Comarca de Aveiro. Passada em nome de D. Maria I por Antonio Rodrigues Leão seu Principal Rey de Armas, em Lisboa, 6 de Abril de 1785. Escudo esquartelado: no primeiro quartel as Armas dos Mayas que são em campo vermelho huma de negro Armada e gotada de ouro. No segundo as dos Vieyras em campo vermelho seis vieiras de ouro em duas pallas. No terceiro as dos Pinhos que são em campo de prata cinco pinheiros de sua cor com pinhas de ouro. No quarto as dos Pereiras em campo vermelho hua Cruz de prata florida e vazia do campo. In 4.º de 4 folhas de pergaminho.



Categoria: Livros e Manuscritos

Estimativas

€ 500.00 - € 1,000.00

Leiloeira São Domingos
Calçada João do Carmo, 31 4150-426 Porto - Portugal

geral@leiloeirasaodomingos.pt

+351 226 106 560 / 266       



História: Solar dos Maias


Rua de Alqueidão, 3830-148 Ílhavo
GPS: 40º36’10.3428’’ | -8º40’8.2956’’



img 







Possuindo no alto da sua frontaria um brasão em escudo oval datado de 1797, com os símbolos das nobres famílias Maia, Vieira, Pinho e Pereira, o Solar dos Maias destaca-se da paisagem urbana de Ílhavo desde os finais do século XVIII.

Localizado na Rua de Alqueidão, este Paço brasonado ainda conserva as suas linhas curvas setecentistas, com bonitas sacadas, uma escadaria lateral e imponentes portões de ferro.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Azulejos da Capela da Vista Alegre assinados por Gabriel del Barco e datado de 1694

Embora já hovesse atribuições de autoria dos azulejos da Capela da Vista Alegre em Ílhavo ao azulejador e pintor Gabriel del Barco (Vd. Meco, José, "Gabriel del Barco na região de Lisboa", Boletim Cultural da Assembleia Distrital de Lisboa", 1979), foi identificada, por Rosário Salema de Carvalho, a assinatura de Gabriel del Barco numa das secções do revestimento azulejar da Capela de Nossa Senhora da Penha de França, na Vista Alegre, em Ílhavo. Encontra-se no canto inferior esquerdo da secção que representa a Fuga para o Egipto, situada do lado da Epístola, sobre a porta lateral. A assinatura - G.L B. co - é seguida da indicação do ano da realização da obra - 1694.

O revestimento, atribuído por vários investigadores a este pintor espanhol, deverá ter sido encomendado pelo Bispo de Miranda D. Manuel de Moura Manuel (1632-1699), cujo brasão se encontra pintado nas portas laterais e cujo túmulo se encontra na capela-mor.

Trata-se, pois, de mais uma obra da autoria de Gabriel del Barco a juntar a tantas outras já conhecidas, e que podem ser consultadas na ficha relativa a este pintor no Az Infinitum - Sistema de Referência e Indexação de Azulejo.


A descoberta, feita no âmbito dos estudos que a investigadora tem vindo a desenvolver sobre a pintura do azulejo do período de transição e Ciclo dos Mestres, demonstra, também, como o recurso às tecnologias hoje ao dispor da História da Arte pode contribuir para conhecer melhor um período tão significativo da história da azulejaria portuguesa. Na verdade, apenas a ampliação de imagens digitais permitiu identificar a assinatura e o ano, localizados muito acima da linha de visão e que haviam passado despercebidos.
 
pintor de azulejos de origem espanhola, que trabalhou em Portugal no final do século XVII e inícios do seguinte, introduzindo a pintura figurativa azul e branca, à qual conferiu grande notoriedade, através de um desenho simples mas trabalhado em pinceladas de forte expressividade. Datado de 1694, este é considerado um trabalho de grande significado no contexto da história da azulejaria portuguesa, tal como o trabalho na Quinta de Sinel de Cordes ou de Nossa Senhora da Conceição
Barcarena, uma vez que se pensa constituir uma das experiências iniciais a azul e branco, e por isso mesmo ainda apegada a modelos polícromos, como os da igreja de Carcavelos, do mesmo autor (MECO, 1979, p. 107).
De facto, Gabriel del Barco chegou a Portugal como pintor de tectos, tendo desenvolvido esta atividade durante algum tempo. Razão pela qual se encontram atribuídas a este artista as pinturas a têmpera da abóbada e ilhargas da sacristia desta Capela, representando árvore de Jessé, figuras femininas e albarradas florais.

Segundo documento existente no Tombo da Fábrica da Vista Alegre, visto por Marques Gomes (1925), foi fabriqueiro e administrador da Capela da Vista Alegre em 1762 o Rev. D. Nicolau Giliberti professor e, reitor do Seminário de Coimbra e, mais tarde, professor do Colégio dos Nobres, em Lisboa, que parece ter sido quem mandou “aplicar os azulejos e proceder a outros melhoramentos. 

Marques Gomes conjetura que D. Nicolau Giliberti tivesse realizado melhoramentos importantes na Capela da Vista Alegre, tais como o azulejamento das paredes e pinturas a fresco da abóbada, embora hoje saibamos que os azulejos interiores datam da génese da Capela, obra de Gabriel del Barco de 1694. 

Possivelmente as obras realizadas seriam, antes sim, o acabar das duas torres. Este distinto sacerdote napolitano, durante bastantes anos ao serviço de Portugal, a quem se deve a vinda dos famosos arquitetos João Francisco Tamossi e João Giacomo Azollini  que trabalharam na construção do Seminário de Coimbra, a quem se deve em grande parte da sua fundação e construção. 

A  D. Nicolau Giliberti se deveria também a fundação de um seminário próximo da Capela da Vista Alegre, projeto por si acalentado e para o qual muito trabalhou, e melhoramento que beneficiaria muito o clero local, intento que não chegou a ver realizado pela sua retirada para Lisboa, chamado pelo Marques de Pombal para assumir a direção do Colégio de Nobres que este criara. 

Marques Gomes conjetura também que as pinturas a fresco do Seminário de Coimbra são trabalho de Pascoal Parente  e muito semelhantes ás da Capela da Vista Alegre, e igualmente a sua execução encomendada por Giliberti. Uma vez mais, em leitura atual comparativa da obra decorativa de Gabriel del Barco, conjeturamos que sejam deste a autoria dos frescos.


Outras obras atribuidas e de Gabriel del Barco:

Painel de azulejos com a representação de São João Baptista
(Hospital de São José, Lisboa)
Pintor, Atribuído (SIMÕES - Azulejaria em Portugal no século XVIII, p. 205)


Revestimento cerâmico da nave da Igreja
(Igreja do Convento dos Lóios, Arraiolos)
Pintor, Assinado, capela-mor e portal [azulejo assinado e datado, descontextualizado, junto ao portal principal, apenas com parte da assinatura - briel del / arco 1699]


Revestimento cerâmico da Capela de São João Evangelista
(Igreja do Convento dos Lóios, Arraiolos)
Pintor, Assinado, capela-mor e portal


Revestimento cerâmico da Capela de São João Baptista
(Igreja do Convento dos Lóios, Arraiolos)
Pintor, Assinado, capela-mor e portal


Revestimento cerâmico da capela-mor
(Igreja do Convento dos Lóios, Arraiolos)
Pintor, Assinado, capela-mor e portal


Painéis de azulejos com iconografia de Santa Clara
(Hospital de Santa Marta, Lisboa)
Pintor, Atribuído (1979 - MECO - "Azulejos de Gabriel del Barco [...]", p. 113; 1979 -MECO - "O pintor de azulejos [...]", p. 65; 1984 - MECO - "Azulejos de Lisboa" [...], p. 53; 1989 - MECO - Azulejaria Portuguesa, p. 67; 1993 - MECO - O Azulejo em Portugal, p. 216; 1994 - MECO - "Lisboa Barroca [...]", p. 327; 1979 - SIMÕES, p. 24; 1996 - VELOSO; ALMASQUÉ - Hospitais Civis [...], p. 91)


Painel de azulejos representando a Adoração dos pastores
(Hospital de São José, Lisboa)
Pintor, Atribuído (MECO, 1979, p. 64; IDEM, 1981, p. 42)


Revestimento cerâmico da sala da Confraria do Santíssimo Sacramento
(Igreja de São Mamede, Évora)
Pintor, Assinado - parede 1, nível 1, secção 1

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Património da Paróquia de São Salvador de Ílhavo

O património da Paróquia de São Salvador de Ílhavo é sem dúvida a história continuada e a mais real prova da vida religiosa e social da cidade. A história de Ílhavo não se escreveria sem este. Por isso, como registo físico da nossa memória, é essencial a sua conservação, valorização e divulgação. Este espaço servirá, na nossa modéstia, este propósito. Neste primeiro artigo, faremos um apanhado histórico da Igreja Matriz de Ílhavo, pois esta, foi e, é o centro da religiosidade da paróquia.

A Matriz terá sido sempre onde actualmente se encontra, à qual se conhece cerca de 500 anos de pastoreio de almas.

O primeiro registo data do priorado iniciado em 1541, do qual existiria um livro de baptismos de 1558, hoje em falta no Arquivo Distrital de Aveiro. Mas a referência mais completa está registada nas Informações Paroquiais de 1721 e 1758 publicadas pelo nosso conterrâneo António Rocha Madahíl, no artigo “Ílhavo no séc. XVIII”. É exactamente no século XVIII que a Matriz de Ílhavo irá ampliar-se na arquitectura que hoje conhecemos. Em 1733 reedifica-se e amplia-se a capela-mor, “por ser a antiga muito pequena e desproporcionada ao corpo da igreja, substituindo-se o altar antigo por retábulo e tribuna de talha moderna”, como refere na informação de 1758 o reverendo João Martins dos Santos, prior desde 1756.

Do retábulo primitivo, anterior ao actual, restam partes de tábuas policromadas e douradas convertidas em móvel na sacristia, existente no anteparo do retábulo da capela-mor.

Na informação paroquial de 1758 é descrita, também, grande parte da imaginária e escultura de vulto. Conclui-se, portanto, anterior a esta data a escultura de vulto do Divino Salvador e São João Baptista, em pedra policromada, do final do século XVI, a imagem de vulto da Nossa Senhora do Rosário em madeira, as imagens de Santa Luzia, de S. Brás, em pedra policromada, uma imagem de São Francisco, em barro, um Santo Amaro de madeira e São Sebastião, de pedra, um Ecce Homo, conhecido como o Senhor da Cana-Verde, em madeira policromada, do século XVI, uma imagem de Cristo crucificado, conhecido como Senhor Jesus dos Navegantes e um Cristo com cruz às costas, conhecido como Senhor dos Passos, ambos do séc. XVII, em madeira policromada.

A Igreja Matriz com a sua nova ampliada arquitectura é benzida e inaugurada em 1785

Da antiga tribuna do primitivo retábulo existem também um São Cristóvão, de barro e um Santo André, de pedra policromada, do mesmo porte e antiguidade das imagens quinhentistas do Divino Salvador e São João, e que devido à ampliação de 1733, deixaram de ter lugar no actual retábulo-mor.

Este património cultural deve conduzir as pessoas ao encontro com a vida da Igreja e deve mostrar como, ao longo dos séculos, essa mesma vida se foi adornando de obras de arte insignes, ao mesmo tempo que se coadunava com o ambiente cultural.
Através de um caminho artístico qualificado, conduzir-se-ão os apreciadores na direcção dupla da memória deste património e das circunstâncias da vida da igreja, onde os objectos sacros e o seu culto se deveram incluir.

Só neste sentido é que os objectos são, não só objectos materiais, mas bens criados por uma comunidade que organiza no tempo a sua própria ideologia cristã.

 Hugo Cálão, in jornal “O Ilhavense”de 21 Fevereiro 2006

terça-feira, 5 de junho de 2012

Contributo para o estudo das azenhas de Vale de Ílhavo (1578-1830)

Tombo da Confraria de Nossa Senhora da Graça de São Miguel de Aveiro de 1583
(Fonte: Arquivo Diocesano de Aveiro ( © )

-Item duas azenhas em Vale de Ílhavo que trás João André e paga delas de foro 80 alqueires em cada um ano por dia de São Miguel (deixadas por Rodrigo Álvares da Ponte e sua mulher em 1578)

-Foro de 80 alqueires de trigo e dez de milho, impostos em duas azenhas no Vale de Ílhavo, com a obrigação de seis missas rezadas e seis cantadas, sendo cada uma delas em cada um dos dias das seis principais destas de Nossa Senhora, e todas aplicadas pela alma de Rodrigo Álvares da Ponte e sua mulher.



Índex de títulos de bens pertencentes da Confraria de Nossa Senhora da Graça de Aveiro, 1746
PT/ADAVR/DIO/CNSGAVR17/001/0001                       1 liv.
 Livro manuscrito encadernado em pele; 30,2x22,2 cm; 96 folhas; n3. Termo de abertura: “Este livro hé o que háde servir para nele se trasladarem todos os títulos e bens pertencentes à Confraria de Nossa Senhora da Graça sita na freguesia de São Miguel desta Vila de que fiz este termo que assinei. Aveiro 3 de Agosto de 1746. Manuel Cardozo de Andrade. Contém inventário de bens e escrituras de aforamento. Inicia escrituras no ano de 1539 até 1783. Contém inventário de objectos na f64 de 1746 e na f69 novo inventário de 25 de Janeiro de 1778 com aditamento de 8 de Novembro de 1793.

p.8 - 1578 Uma escritura de prazo antigo que fizeram os oficiais de Nossa Senhora da Graça das azenhas do Vale de Ílhavo da dita Confraria, o qual prazo antigo foi feito primeiramente a João André na era de 1578, as quais agora trás (1746) por novo prazo Manuel Francisco, o Esmerado do vale de Ílhavo em preço de 80 alqueires de trigo, 20 de milho feita nas notas de Luís Pinheiro Pacheco, tabelião na Vila de Ílhavo. 


Escrituras e documentos:


1634-12-18 Escritura de compra que fez Miguel Correia de Quadros, escrivão da Confraria, a Pero André e a sua mulher Francisca João de um chão no Vale de Ílhavo, próximo destas azenhas com o dinheiro de acréscimos. Parte do sul com a madriz corrente da água, do nordeste com vessada de Manuel Nunes, o qual foi arrendado a este Manuel Nunes por 10$000 réis em 1635 por escritura nas notas do tabelião Baltazar Pais Coelho.
Arquivo Diocesano de Aveiro (fundo Confraria de Nossa Senhora da Graça da Igreja de São Miguel de Aveiro)  ©  
PT/ADAVR/DIO/CNSGAVR17/003/000003, 
doc. 5f
1635-08-22 Escritura de desistimento que fez Manuel André, o Gadelha aos oficiais da Confraria de Nossa Senhora da Graça da Igreja de São Miguel de Aveiro das azenhas de Vale de Ílhavo, que aceitaram e tomaram delas posse, e delas fizeram novo prazo a seu filho Pero André feita nas notas do tabelião de Ílhavo, Luís Pinheiro de Morais .
Arquivo Diocesano de Aveiro (fundo Confraria de Nossa Senhora da Graça da Igreja de São Miguel de Aveiro)  © 
PT/ADAVR/DIO/CNSGAVR17/003/000004, doc. 4f
Saibam quantos este instrumento de desistimento que vale em direito e melhor chamar se possa deste dia para sempre virem que no ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil seiscentos e trinta e cinco anos aos vinte e dois dias do mês de Agosto do dito ano no Vale de Ílhavo, termo da Vila de Ílhavo e na azenha em que vive Manuel André, o Gadelha de alcunha aí pareceu ele presente e suam mulher Margarida André, pessoas conhecidas de mim tabelião e por eles ambos foi dito perante mim e testemunhas adiante nomeadas que eles tinham e possuíam duas azenhas pertencentes uma e outra as quais se chamam as azenhas de Nossa Senhora da Graça da Vila de Aveiro, sitas no dito Vale de Ílhavo e que ambas partem do norte com estrada que vai para a azenha que foi de Nuno Borges e do sul com terras que foram de João André, defunto seu pai e logo deles sobreditos, as quais azenhas os oficiais de Nossa Senhora da Graça da Vila de Aveiro emprazaram e aforaram em fateozim ao dito João André.

1639-06-11 Escritura de aforamento das duas azenhas do Vale de Ílhavo que a Confraria de Nossa Senhora da Graça da Igreja de São Miguel fez a favor de Pero André, o Gadelha e sua mulher Francisca Joana, feita nas notas do tabelião Mateus Fernandes de Oliveira.
Arquivo Diocesano de Aveiro(fundo: Confraria de Nossa Senhora da Graça da Igreja de São Miguel de Aveiro)  ©   
PT/ADAVR/DIO/CNSGAVR17/003/000005, doc. 6f
1685-05-16 Escritura de desistimento que fez a moleira Maria Francisca, viúva que ficou de José Nunes aos oficiais da Confraria de Nossa Senhora da Graça da Igreja de São Miguel de Aveiro das azenhas de Vale de Ílhavo, feita nas notas do tabelião Roque de Matos Adrião da Vila de Aveiro.
Arquivo Diocesano de Aveiro ©  
Arquivo Distrital de Aveiro PT/ADAVR/DIO/CNSGAVR17/003/000007, 4f
1830-05-15 Sentença cível de demarcação da azenha do Vale de Ílhavo entre Augusto Ferreira Pinto Basto da Vista Alegre, o Rev. José da Cunha Nunes como tesoureiro da Confraria de Nossa Senhora da Graça de São Miguel de Aveiro e José Duarte Mourão como procurador das religiosas do Convento da Madre de Deus de Sá de Aveiro e termo da Vila de Ílhavo pertencentes ao Donatário desta Vila o Morgado de Carvalhais; Demarcação da água que corre da azenha da Aleixa de que é moleiro Francisco dos Santos Teco para a azenha de Augusto Ferreira Pinto Basto, a fim de não afrontar a água da roda, sendo presentes Manuel Francisco Cardozo de Vale de Ílhavo e Francisco Fernandes Grego da Ermida por conhecimento da altura em que corria a água fazendo novo marco de pedra.
Arquivo Diocesano de Aveiro(fundo: Confraria de Nossa Senhora da Graça da Igreja de São Miguel de Aveiro)  ©  
PT/ADAVR/DIO/CNSGAVR17/006/00008, doc. 6f

Quadro de síntese de proprietários das azenhas de Nossa Senhora da Graça de Vale de Ílhavo

1578 - João André
1600 - Manuel André, o Gadelha
1608 - Herdeiros de Manuel André: Domingos André, o Candelo, António Ribeiro, Miguel António, Manuel André, o Cartaxo e Manuel Gonçalves Alberto
1639 - Pero André, o Gadelha
Simão Francisco
António Gonçalves
Manuel Nunes, o Calado, moleiro de Vale de Ílhavo
1685 - Maria Francisca, moleira viúva de José Nunes
1746 - Manuel Francisco, o Esmerado
1774 - João Francisco, moleiro de Vale de Ílhavo
1829 - Inácio Nunes Vieira
António Gomes da Silva


Ver mais em:
Oudinot, José Reinaldo Rangel de Quadros, Aveiro: origens, brasão e antigas freguesias, Paisagem Editora, 1984, p.81
Oudinot, José Reinaldo Rangel de Quadros, Aveiro - Apontamentos Históricos, Câmara Municipal de Aveiro, 2009, p.73

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Santuário de Schoenstatt da Colónia Agricola: contributo para a sua história

No dia 1 de Maio 1979, foram iniciadas as obras de construção do Santuário de Schoenstatt na Colónia Agrícola,um Santuário totalmente construído pelo povo. O projecto espiritual foi conquistado, a terra e os tijolos foram carregados pelas mulheres, os alicerces escavavam os homens e juntos rezavam e cantavam. Essa era a gente da terra que sonhava e fez do sonho vida.
Ainda nesse mês foi benzida a pedra angular em cerimónia presidida por D. Manuel de Almeida Trindade e participada por um grande número de pessoas que peregrinaram a pé desde a paróquia. A pedra fundamental veio de Roma do túmulo de São Pedro. Abençoada pelo Papa João Paulo II, expressa a missão do Santuário em construção: TABOR MATRIS ECCLESIAE. Nesse ano, recordavam-se as palavras do Pe. Kentenich ditas 50 anos antes, junto ao santuário original: “À sombra deste Santuário serão decididos, essencialmente, os destinos da Igreja e do mundo por séculos!”
No dia 21 de Outubro, deu-se a solene inauguração do Santuário Tabor Matris Ecclesiae em celebração presidida pelo Bispo Diocesano e a que estiveram também presentes o Arcebispo de Mitilene, D. Maurílio e um grande número de sacerdotes de Schoenstatt e das paróquias vizinhas.
Em 1993 o Santuário de Aveiro foi decretado diocesano. No decreto o Sr. Bispo escreve: “Desejamos que as nossas paróquias e comunidades de vida consagrada, os serviços pastorais, os movimentos e os grupos apostólicos da Diocese, bem como as famílias cristãs em geral, considerem o Santuário Diocesano “Tabor Mater Ecclesiae” como um lugar convidativo ao enriquecimento espiritual, ao dinamismo apostólico e ao empenho pastoral.”
Todos os anos se organiza a peregrinação diocesana a este Santuário, o qual D. António Francisco dos Santos, actual Bispo Diocesano, caracteriza como Santuário Mariano, Santuário Vocacional e Santuário Eucarístico.









Deixamos, por curiosidade, registo fotográfico da visita do Papa João Paulo II, ao santuário original em Schoenstatt, na Alemanha:







sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A Igreja do Hospital da Misericórdia de Ílhavo: contributo para a História da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo.

Grupo de angariação de fundos para o Hospital
da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, c. 1919
(fonte:http://www.ramalheira.com/paginas/rostos.htm)
  À semelhança do que aconteceu na maior parte das cidades e vilas de Portugal, a Vila de Ílhavo também teve o seu Hospital, gerido pela Santa Casa da Misericórdia, fruto da vontade de muitos e impulssionado pelo ilhavense Viriato Teles.

   Em Abril de 1919 são aprovados os estatutos da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo e a 1 de Maio de 1919 foi lançada a primeira pedra para a sua construção.
   

Direcção do Hospital de Ílhavo e grupo de Ilhavenses
que promoveram as festas de assentamento
da primeira pedra do Hospital de Ílhavo

   Na fachada posterior existiriam duas frestas do volume central com grades de ferro lendo-se, na da esquerda, as iniciais "JC" e, na da direita, a data de "1915" que crê corresponder a elementos da casa particular doada para a construção do Hospital.


 O edifício construído em U,  hoje adaptado a nova arquitectura, era composto por três volumes  criando um espaço rectangular que se abre diante da fachada principal. Adossavam-se à fachada posterior vários outros volumes que configuram aí uma disposição irregular, como o volume da Capela a sudeste.  A fachada principal apresentava no volume central piso térreo avançado com terraço corrido no segundo piso e acesso por escadaria perpendicular à fachada,  com guarda de ferro forjado. A porta disposta axialmente, rectangular, diante da escadaria, era antecedida por pórtico com dois pilares arquitrave e frontão curvo onde se lia a inscrição pintada HOSPITAL CONCELHIO / DE / ÍLHAVO, encimado por pedestal com estátua de vulto da Caridade, da autoria do mestre canteiro António de Freitas. 

   Em 1920, o edifício do hospital já se encontrava coberto e telhado e, em Setembro de 1922, inicia-se a obra de construção da capela do Hospital Misericórdia, anexa ao edifício, por iniciativa de Manuel Marques de Almeida Bastos tendo a Câmara Municipal de Ílhavo oferecido um retábulo de altar, uma tribuna, uns portões de ferro, um púlpito e um gradeamento que haviam pertencido ao extinto convento de irmãs religiosas de Calais de Ílhavo, existente anexo à Capela de Nossa Senhora do Pranto. Foi dedicada a Nossa Senhora de Fátima e benzida a 26 de Março de 1931. A benemérita D. Celeste Maria dos Santos ofereceu também um Cristo de bela escultura que encima o sacrário. 
Senhor Jesus dos Desprotegidos
inscrição: ass. Pereira Teles
Dai esmola ao nosso Asilo /
Cada um dá o que quer /
Esta casa será aquilo /
Que a Caridade quiser
   A Capela tem planta longitudinal composta por nave, capela-mor e sacristia do lado direito, volumetricamente distintos. Rebocada e pintada a branco, com elementos arquitectónicos modelados em argamassa e pintados de amarelo. A fachada principal está delimitada à esquerda e à direita por barras verticais, ligeiramente salientes e pintadas de amarelo, para simular pilastras que a dividem visualmente em dois panos, o maior correspondendo à nave e o menor simulando torre sineira. No pano principal, porta de arco pleno com pilastras e arquivoltas, encimada por dois óculos circulares e enquadrados por molduras de meias voltas suportadas por mísulas, sendo o todo rematado por cornija, que desenha uma meia volta sobre a linha da porta, e por colocados a par, empena de lanços, com volutas no vértice rematado em cruz. O pano de muro simulando torre, é encimado pela sineira de arco abatido. A fachada lateral noroeste tem duas janelas rectangulares molduradas sobre a linha média. A fachada posterior tem pequeno óculo circular na linha de base da empena e janela rectangular no corpo da sacristia.
   No interior, rebocado e pintado de branco, a nave de embasamento rematado por fina cornija salientada a amarelo, tem côro-alto sobre arcada de três arcos abatidos suportados por pilares de molduramentos pintados de amarelo, com balaustrada de madeira. O pavimento é de madeira assim como o forro de cobertura de secção poligonal pintada de azul. A meio da nave, do lado direito, encontra-se a imagem de Cristo crucificado dito Senhor Jesus dos Desprotegidos, de grande dimensão. O arco-triunfo pintado de amarelo, com pilastras e fecho saliente tem lateralmente, sobre mísulas, a imagem de São Brás, do lado direito, fazendo pendant com a imagem de Santo António de Lisboa. A capela-mor, de abóbada de berço rebocada e pintada de branco e pavimento de madeira, tem acesso por dois degraus, com retábulo muito simples de madeira pintada de branco e motivos pintados de dourado, constituído por duas colunas de fuste liso e capitéis compósitos, rematadas por frontão triangular onde se inscrevem os símbolos eucarísticos, formando um espaço central cujo fundo é a própria parede testeira, à qual se encosta o sacrário, de características decorativas afins, encimado por crucifixo. Lateralmente, na mesma parede, duas mísulas com as imagens do Sagrado Coração de Jesus em pendant com a imagem da Virgem de Fátima, sob e baldaquinos entalhados.

Provisão e autorização de bênção da Capela de Nossa Senhora de Fátima do Hospital
da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, 26 de Março de 1931

   Ao longo dos anos, administrado pela Santa Casa da Misericórdia, o Hospital de Ílhavo foi cumprindo a sua função servindo não só a população concelhia, mas também os habitantes dos concelhos vizinhos.
   Em 1949, no dia 6 de Fevereiro é inaugurada a obra de compartimentação do piso térreo e construção de um "solarium" como prolongamento da fachada posterior do lado noroeste, deslocando-se a Ílhavo o Sr. Ministro do Interior. Em 1959 é feita a construção do bloco de radiologia no piso térreo do "solarium" e, em 1960 faz-se a construção do bloco cirúrgico António Francisco Corujo (o Ronca) como prolongamento da fachada posterior do lado nordeste.
   No pós 25 de Abril de 1974 o Hospital foi nacionalizado, passando o Estado a fazer a sua gestão, assumindo-se como principalprestador dos cuidados de saúde.
   Em 1990 deu-se o encerramento do Hospital, ficando apenas em funcionamento o Centro de Saúde e o Serviço de Atendimento Permanente que passados sete anos se mudaram para novas instalações.

   Em 2000 a capela, que se encontrava-se em avançado estado de degradação e transformada em armazém, foi intervencionada sendo feita obra de recuperação das coberturas, pintura de fachadas e no interior e beneficiação do pavimento interior.

   A Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo inaugurou as obras da renovada capela no dia 24 de Abril de 2010, aquando das comemorações do seu 91º aniversário, que contou com uma missa presidida por D. António Marcelino.

Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo:

   O Arquivo, que se encontrava no Hospital da Misericórdia de Ílhavo e ali se manteve após a passagem, em meados da década de 70 de 1900, da sua administração para o Estado, sofreu uma inundação que conduziu à sua destruição quase total.
   Desta forma o seu fundo é constituído por um reduzido número de documentação, na qual se destacam: Compromissos (1988), Actas da Assembleia-Geral (1930-1981), Actas da Mesa Administrativa (1960-1976), actas do asilo de Inválidos e Creche para Órfãos Menores (1936-1947), e Copiadores de Correspondência expedida do Hospital de Ílhavo (1938-1945).
   Possui ainda a cópia de uma brochura original relativa à Sociedade de Caridade de Ílhavo, que esteve na origem desta Santa Casa. 

Cortejo de oferendas para o Hospital da Misericórdia de Ílhavo, 21 de Dezembro de 1947

in Boletim da Assistência Social, Ed. do subsecretariado de Estado e Assistência Social, 1948, nº62, p. 102
Cortejo de oferenda para o Hospital de Ílhavo, 1947
 Beneméritos do Hospital de Ílhavo:
in Boletim da Assistência Social, Ed. da Direcção-Geral de Assistência Social, 1958, nº131, p. 246
in Boletim da Assistência Social, Ed. da Direcção-Geral de Assistência Social, 1960, nº139, p. 321

Hugo Cálão
in patrimonioreligiosodeilhavo.blogspot.com