A religiosidade, o culto ao padroeiro, São Salvador, e o subsequente legado de arte sacra do concelho de Ílhavo, são a história continuada e a mais real prova da fé do povo e agregação social. A história da cidade não se escreveria, nem se conheceria, sem estes mil anos de registos documentados sobre a ação da Igreja em Ílhavo.
Igrejas
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- Paróquias da Gafanha da Nazaré, Gafanha da Encarnação, Gafanha do Carmo, da Costa Nova e da Barra
- Alminhas
sexta-feira, 13 de outubro de 2023
Descrição de Ílhavo em 1865 - Richard Stephen Charnock (1820-1904)
segunda-feira, 2 de outubro de 2023
Histórias e Mistérios de Ílhavo: a bruxa de Ílhavo Ti Rita Quitéria
Luar
de Setembro! Desperta-se em nós a saudade desse formoso rincão tão perto do mar,
minúsculo tapete bordado de infinita variedade de verdes, de claro, de escuro, de
prateado, da gramata da ria!
Estamos a 29 de Setembro, dia de São Miguel, anjo que entregou ao profeta Daniel o significado de visões que antecipavam coisas futuras. A história que vamos contar ouvimos de um casal com muita idade, que junto de nós estava (podia ser no Festival Cabelos Brancos), e que entreolhando-se, sorriram. Docemente a velhinha reclinou a cabeça de neve sobre o peito do companheiro e este começou:
No lugar da Légua não havia rapariga mais
linda do que a Luísa Bicuca, e no Casal não havia rapaz mais cantador e
reinadio do que o Joaquim Felpas. O Felpas gostava da Bicuca, mas a Bicuca não
gostava do Felpas. Num desafio, no dia da Senhora da Luz, o Felpas cantou-lhe:
Cantam nóras pelo campo
O verdemilho a regar,
Deu a seca na
minh'alma
Sem a luz do
teu olhar,
A Bicuca
respondeu-lhe :
Por mais voltas
que tu dês
Aos alcatruzes
da nóra
Hei de sempre
responder-te
- Não te quero, vai-te embora!
Tempos
decorreram. A Luísa Bicuca descera a lavar ao Rio da Páscoa, que lhe passava ao
fundo da propriedade. Tirando do dedo um anel de oiro, pousou-o sobre uma
pedra, e começou a lavar. Em dado momento quando a Bicuca estendia roupa sobre
um silvado, alguém que a espreitava, aproximou-se rastejando por entre um
milharal e guardou o anel, desaparecendo em seguida. Já meio-dia era passado
quando a Luísa Bicuca acabara de lavar o rol. Ao procurar o anel para enfiar no
dedo, o coração caíra-lhe aos pés. A linda prenda que a madrinha, quatro meses
antes, lhe havia comprado na Feira de Março, desaparecera. E lá foi, rio abaixo,
na meia curvatura de quem procura alguma coisa, não fosse o seu anel ter rolado
com a corrente das águas. Assim andou até que, passadas as horas de sesta, lá foi
para casa com o lindo olhar a embaciar-se-lhe de lágrimas, contando á mãe o
sucedido. O anel nunca aparecera e a Bicuca, dali em diante, começou de ficar tão
triste, tão triste e a perder o apetite, que em pouco tempo parecia desenterrada.
O seu olhar, dantes tão vivo e penetrante, tornou-se apagado
e fixo como o dum carneiro mal morto. Mas a ti Luísa Vigária, madrinha da
Bicuca, começou a ver naquilo arranjos de bruxedo.
— Nem que eu tenha de dar uma volta ao Inferno, hei de
desembaraçar esta meada!
Escura como breu estava aquela noite em que a Bicuca, mãe e
madrinha foram a Ílhavo consultar a bruxa que morava no Curtido. A Vigária,
como mais afoita, foi quem expôs à feiticeira os pontos mais salientes do caso
da afilhada.
— As cartas rezam tudo...— respondeu a bruxa.
Aninhadas todas as quatro á lareira, apenas alumiada pela
escassa luz da candeia que pendia do cambeiro, a sorte começou. Logo às
primeiras cartas se viu com grande clareza, pela perseguição que o conde fazia à
sota (o valete à dama), que andava envolvido naquilo um homem que, não podendo conquistar
ao bem o coração da Bicuca, procurava a todo o transe enfeitiçá-la!...
A espadilha, que veio logo depois, assim o confirmava! Era
portanto um caso muito bicudo e que merecia um grande cogitar. Como a
feiticeira precisava de ter conferências com o Diabo, prometeu uma resposta segura
para dali a oito dias, marcando a meia-noite para comparecerem e recomendando
um segredo absoluto. Na noite seguinte, em casa da mesma feiticeira, aparece um
homem todo embuçado que lhe pergunta logo à entrada:
— Então Ti Quitéria?... - E a bruxa com ar de quem tudo
descobriu:
— Adivinhei tudo, tudo! O anel que vossemecê achou, é duma bonita
cachopinha da Légua, chamada Luísa Bicuca.
Aquela revelação, assim de chofre, o homenzinho, que não era
outro senão o Felpas, ficou boquiaberto. E a bruxa, com um malicioso sorriso,
adivinhando as intenções do Felpas, acrescentou:
— E gosta muito dessa cachopinha?
— É verdade, Ti Quitéria, mas...
— Mas ela não gosta de si, foi por isso que vossemecê cá trouxe
o anel...
Tal adivinhar, fez ver ao Felpas o grande poder oculto
daquela mulher e mais se convenceu quando ela lhe perguntou:
— E até se lhe não dava de casar com ela?
— Ah! que se vossemecê arranjasse isso, pagava-lho bem pago!
— Talvez se arranje...
— Ó Tia Rita Quitéria, nem que eu tenha de vender a terra do Choiso! Arranje-me isso que lho pagarei bem pago!...
— Pois vá com a Nossa Senhora e venha cá sexta-feira, ao dar da
meia-noite.
Na torre da Igreja soam compassadamente as doze badaladas da
meia-noite. A essa hora triste, três vultos caminham por Espinheiro, em direção à casa da bruxa. Esta, de ouvido à escuta, logo que ouve passos no beco, abriu a
porta e as três criaturas entraram. Subjugadas pelos terrores secretos de quem
vai ouvir uma sentença terrível, esperavam a palavra da bruxa que, com um ar
cheio de mistério, lhes perguntou:
— Conhecem o Joaquim Felpas?
— Conhecemos, — respondem.
— Pois ele é que tem na mão a vida ou a morte desta menina!
— Jasus! Credo! – choramingou a Bicuca, lavada em lágrimas.
A bruxa continuou:
— O Felpas quer casar com ela. É o modo de a salvar.
Um grande silêncio abafado reinou durante alguns minutos, apenas
entrecortado pelos soluços da Luísa. A bruxa, toda despenteada, dava aquele
quadro tétrico, uma pavorosa e sombria cor.
— O anel desta pobre aqui veio ter por artes que só eu sei…
Vê-de bem! Ele vai-se desgastando do mesmo modo que ela vai mirrando, até
morrer! Enquanto o Felpas vivo for, ninguém terá o poder de lho tirar! Esse
anel tem estado enterrado no cemitério dentro dum púcaro novo. Esse púcaro tem
dentro um sapo macho, e na boca desse bicho, cosida com linha preta, é que o
anel tem estado. Aí o mando, para a boca do sapo, que o não posso ter mais
tempo em meu poder... — E a bruxa, atirando o anel para um buraco, ao canto do borralho,
concluiu com grande prepotência:
— De duas uma: ou casar com o Felpas, ou morrer!!!
Uma lufada de vento que desceu pela chaminé, apagou a
candeia! Estarrecidas de medo, as três mulherzinhas, desataram a gritar. Vizinhas,
em trajes menores, julgando que era fogo, saltaram para o meio do beco. Em
pouco tempo a rua de Espinheiro ficou em polvorosa. Esmiuçado o acontecimento, alguém
afirmava ter visto o Diabo em forma de cavalo, galopando rua abaixo...
Poucas semanas depois a Ti Luísa Vigária procurou o Felpas para
combinarem o casamento.
E o velho sorrindo e concluindo a história, disse-nos:
— O anel do feitiço é este que minha mulher tem no dedo.
— Então o sr. é…
— Eu sou o Joaquim Felpas e ela é a Luísa Bicuca.
E num transporte de candura, cingindo a companheira dos seus dias de encontro ao coração, disse:
— E creio que está para haver ainda casamento mais feliz, não
é verdade, Luísa? -
E a velhinha aconchegada toda ao peito do marido disse, chorando
de comoção:
— Abençoado feitiço!...
adaptado de João Teles, in jornal O Ilhavense, de 3 de Setembro de 1922.
quinta-feira, 17 de agosto de 2023
Histórias e Mistérios de Ílhavo: lobisomens e promessa ao Senhor Jesus de Ílhavo
Se à noitinha via uma estrela cadente cruzar no espaço, erguia-se com respeito e pronunciava sempre a frase protetora: — «Deus te guie!» porque na sua crença, era uma alma desgarrada que procurava aflita o caminho do céu.
Não raro, a dormir já, estremecia na cama e acordava a mulher, aterrado, trémulo de medo:
—Eh! Luiza! Luiza! — ouvira o galope desabrido dum lobisomem, lá fora. — Que seria?
Escuta, Luiza! Acho que é um lobisomem!
—Tem juízo home, tem juízo... — dizia-lhe a mulher e, quedo e aconchegado ao corpo da esposa, ficava atento, balbuciando rezas.
No entanto, na vida arriscada da pesca, ninguém o tinha na conta de cobarde. Duma feita na Costa Nova, trabalhando na companha do «Galo Velho», fora ele que enfrentara o escrivão que armado de varapau, crescera arrogante para mais de vinte homens que reclamavam quinhões atrasados. Atraída pela discussão azeda dos dois, toda a companha se juntou em volta, esperando entre risonhos e comovidos, numa ansiedade mal contida, o desfecho daquela altercação que devia de ser terrível. Ninguém dava nada pelo Bentevi que á vista do outro era um cinco reis de gente. O próprio escrivão virou-lhe as costas num gesto de desprezo, mas o Bentevi avançando sobre ele, disse:
— Nem és homem, nem és nada! Se me tocasses, até te roía os fígados!
Aquela ameaça, o escrivão virou-se de frente, encarou o seu contendor e sorridente, certo da vitória, derreou o corpo de flanco, levantou no ar o pau com pontaria á cabeça do Bentevi. Ouve um sussurro de aplauso entre os partidários do escrivão. Súbito, porem, um grito partiu, e o escrivão, abaixando-se com ambas as mãos no ventre, continha o sangue que jorrava de uma larga e profunda ferida. Acudiram todos, alguns com pena, outros com satisfação, aplaudindo o salto ágil do Bentevi que, livrando-se da paulada certeira do seu inimigo, lhe cravara no ventre a lâmina duma faca.
À meia noite, para lá da Barra da Vagueira, o Bentevi recebia das mãos da esposa umas moedas e uma medalhinha que ela lhe dependurou ao pescoço, lavada em lágrimas:
— Adeus, homem!
— Adeus, mulher! Para onde eu for, de lá te mandarei notícias! E partiu fugido para o Brasil.
Havia mais de um ano que o Bentevi vivia em Santos num sítio em que ele exercia a profissão da pesca. Que terríveis noites não passava o desgraçado, pungido pelo remorso, a ouvir sempre o grito agudíssimo que o escrivão largara quando a faca lhe entrou no ventre! Sentia ainda na mão a tepidez do sangue que jorrara, em gorgolões do ventre da sua vítima.
À noite, no rancho, depois que os camaradas recolhiam, as grandes sombras das árvores, ao pálido luar, tomavam formas espectrais que o amedrontavam. Figuravam-se-lhe braços ameaçadores, vultos embuçados que avançavam em passos subtis e parecia ouvir gritos, rumores de vozes ou lamentos doridos vindos do fundo da mata que negrejava para lá da casita.
— Que raio de vida esta, Senhor!... Perdoai-me Senhor Jesus, que eu já estou arrependido! E aquela mulher sem me responder, Senhor! Terá havido alguma desgraça?
Compungia-o a ideia de ter morto o escrivão. A mulher não lhe escrevera ainda, por isso não sabia se a sua vítima era deste mundo ou não. Uma tarde, em que ele viera a Santos, só pode regressar ao sitio, pela tarde da noite. Estava um esplêndido luar e a estrada do Cubatão, muito branca, insinuava-se pelo arvoredo e perdia-se nas sombras quietas. Era grande o silêncio e as sombras das árvores que se despejavam sobre a estrada, tornavam-na, por vezes, negra, mas logo adiante a lua reaparecia alumiando o caminho.
Ele caminhava a olhar o céu todo estrelado onde a lua brilhava. De repente, um grito silvou na mata. O Bentevi deteve o andar, olhando em roda. O luar cada vez mais brilhante, refletia na água quieta do rio que ladeava a estrada. Bentevi retomou o caminho, mas não havia dado dez passos quando, de novo, ecoou o mesmo, grito agudo que desta vez parecia proferir o nome dele: Bentevi! O pescador sentiu um arrepio de medo e ficou a olhar, mas tudo era mato e sombra, nem vivaalma, nem uma luzinha dum rancho! Uma voz interior parecia dizer-lhe que não prosseguisse, mas ele dando mais uns passos ouviu novamente o mesmo grito agudo: Bentevi!
Estremeceu violentamente. Persignou-se e ficou preso á terra, agarrado ao solo como aquelas árvores frondosas que pareciam esconder o assombro.
Uma ideia sinistra lhe veio aumentar o pavor. Seria um lobisomem? Seria a alma do escrivão? Levantou os olhos ao céu e uma estrela cadente riscou o espaço.
— «Deus te guie!
Seguidamente o mesmo grito lamentoso que parecia desferido por alguém que sofria: Bentevi!
Levou a mão à cinta e apertou a coronha da garrucha e, sacando-a para fora, levou-a à altura dos olhos e fez fogo ao acaso, Um grande estrondo ecoou no silêncio rolando trovejantemente. Bentevi!! Benteviii!!
Conjuntamente com estes gritos um ruflo de asas cortou o espaço sinistramente,
— Valha-me o Senhor Jesus de Ílhavo!
E com os dedos crispados, arrancou de sob o peito da camisa a medalhinha com a imagem do Senhor Jesus de Ílhavo que a mulher lhe pusera ao pescoço na noite da sua fuga. Segurando na mão fechada a pequenina medalha levantou ao ar o braço, como que a esconjurar o perigo e lá foi seguindo vagarosamente a estrada, ouvindo a voz ou ave agoirenta, pronunciar, já muito longe: Bentevi! Benteviiii!
Ao outro dia, dificilmente puderam convencer o pescador da existência nas matas brasileiras duma ave que canta pronunciando o seu verdadeiro nome: Bentevi!
quarta-feira, 9 de agosto de 2023
Imagem de Nossa Senhora da Saúde da Costa Nova do Prado
In Invocações Marianas na Diocese de Aveiro, Pe. Domingos Rebelo, 1988
Calcário policromado
Capela da Costa Nova do Prado, Gafanha da Encarnação, século XVI (?)
66,5 alt x 24 larg cm
Capela do Cemitério da Gafanha da Encarnação 1932
in jornal O Ilhavense, nº945, 1 janeiro 1933
Gafanha da Encarnação - Benção da Capela do Cemitério
Dia 9 de Dezembro último. A manhã sempre serena e linda, parecendo associar-se, com tristeza de outono, ao ato que ali vai ter lugar. Pelas 8 horas sai da igreja matriz a Irmandade da Senhora da Encarnação com o reverendo Prior da freguesia, dois seminaristas e muito povo no coice (um cortejo caminhando no comprimento de dois quilómetros). Entra-se no cemitério! Amplo e belo campo santo, bem situado, longe da povoação, em lugar pitoreseo e alegre, mais parecendo um jardim-dormitório do que uma necrópole; um excepcional campo sagrado, sem aquele pesado aspecto lúgubre, tristonho, da maior parte dos cemitérios do país. Abre-se a capela das encomendações, concluida há poucos dias. À direita, uma sacristia e à esquerda, uma sala para autópsias.
Na tribuna, um Cristo agonizante, de tristes olhos para o chão, bela imagem do Senhor dos Aflitos, parecendo pedir dali misericórdia para os defuntos que entram naquele silêncio-eternidade.
Festa de Nossa Senhora do Carmo da Gafanha de 1932
in jornal O Ilhavense, nº927, 21 agosto de 1932
Festas & Romarias: SENHORA DO CARMO
Hoje, festeja-se na Gafanha do Sul a imagem da Senhora do Carmo, a que assiste a Banda Bingre Canelensee a a Filarmónica Ilhavense. Como é o primeiro ano que se faz a festa, depois de construida a estrada daquele lugar, de esperar é que seja muito concorrida.
Roubo do espólio da Capela da Ermida em 28 Abril 1932
in jornal O Ilhavense, nº911, 1 de maio de 1932
Roubo importante:
Na sexta-feira passada, à tarde, quando o sr. Joaquim Rezende, lavrador, do lugar da Carvalheira andava no cultivo de uma terra com ontras pessoas de sua familia, os gatunos, que ainda se não sabe quem sejam, entraram-lhe em casa e roubaram-lhe 3.800$00 em dinheiro, um cordão de ouro, uma corrente e 4 ligas do mesmo metal e 4 resplendores de prata da imagem da Senhora do Rosário da Ermida, de cuja confraria o sr. Rezende é tesoureiro. A autoridade administrativa procede às investigações.
sábado, 27 de maio de 2023
Parocos de Ílhavo: Pe. Diamantino Ribau (f. 1933)
O Pe. Diamantino Ribau natural da Cale da Vila, Gafanha da Nazaré, Ílhavo faleceu com pouco mais de vinte anos. Foi pároco de Chãos (Tomar) e à data da morte em Fevereiro de 1933 era pároco de Amoreira da Gândara. Este jovem padre era sobrinho do Pe. José Maria Ribau, prior de Fermentelos e possuia invulgres faculdades de inteligencia, sendo um dos alunos mais distintos do seminário de Coimbra.
quinta-feira, 11 de maio de 2023
Coagitando: o roubo da lâmpada de Ílhavo
in jornal 'O Ilhavense' de 1 de Julho de 1961









