quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Histórias e Mistérios de Ílhavo: lobisomens e promessa ao Senhor Jesus de Ílhavo










O Luís Bentevi (alcunha), era homem de alma ingénua, nascido e criado no meio piscatório que era Ílhavo de antanho. Sempre a ouvir do mulherio crédulo, lendas de espíritos malignos, casos estranhos de assombramento, correrias de lobisomens e aparecimentos de bruxas, respeitava, com terror supersticioso, todas as abusões, não gostando que o chalaceassem a esse respeito.

Se à noitinha via uma estrela cadente cruzar no espaço, erguia-se com respeito e pronunciava sempre a frase protetora: — «Deus te guie!» porque na sua crença, era uma alma desgarrada que procurava aflita o caminho do céu.

Não raro, a dormir já, estremecia na cama e acordava a mulher, aterrado, trémulo de medo:

—Eh! Luiza! Luiza! — ouvira o galope desabrido dum lobisomem, lá fora. — Que seria?

Escuta, Luiza! Acho que é um lobisomem!

—Tem juízo home, tem juízo... — dizia-lhe a mulher e, quedo e aconchegado ao corpo da esposa, ficava atento, balbuciando rezas.

No entanto, na vida arriscada da pesca, ninguém o tinha na conta de cobarde. Duma feita na Costa Nova, trabalhando na companha do «Galo Velho», fora ele que enfrentara o escrivão que armado de varapau, crescera arrogante para mais de vinte homens que reclamavam quinhões atrasados. Atraída pela discussão azeda dos dois, toda a companha se juntou em volta, esperando entre risonhos e comovidos, numa ansiedade mal contida, o desfecho daquela altercação que devia de ser terrível. Ninguém dava nada pelo Bentevi que á vista do outro era um cinco reis de gente. O próprio escrivão virou-lhe as costas num gesto de desprezo, mas o Bentevi avançando sobre ele, disse:

— Nem és homem, nem és nada! Se me tocasses, até te roía os fígados!

Aquela ameaça, o escrivão virou-se de frente, encarou o seu contendor e sorridente, certo da vitória, derreou o corpo de flanco, levantou no ar o pau com pontaria á cabeça do Bentevi. Ouve um sussurro de aplauso entre os partidários do escrivão. Súbito, porem, um grito partiu, e o escrivão, abaixando-se com ambas as mãos no ventre, continha o sangue que jorrava de uma larga e profunda ferida. Acudiram todos, alguns com pena, outros com satisfação, aplaudindo o salto ágil do Bentevi que, livrando-se da paulada certeira do seu inimigo, lhe cravara no ventre a lâmina duma faca.

À meia noite, para lá da Barra da Vagueira, o Bentevi recebia das mãos da esposa umas moedas e uma medalhinha que ela lhe dependurou ao pescoço, lavada em lágrimas:

— Adeus, homem!

— Adeus, mulher! Para onde eu for, de lá te mandarei notícias! E partiu fugido para o Brasil.

Havia mais de um ano que o Bentevi vivia em Santos num sítio em que ele exercia a profissão da pesca. Que terríveis noites não passava o desgraçado, pungido pelo remorso, a ouvir sempre o grito agudíssimo que o escrivão largara quando a faca lhe entrou no ventre! Sentia ainda na mão a tepidez do sangue que jorrara, em gorgolões do ventre da sua vítima. 

À noite, no rancho, depois que os camaradas recolhiam, as grandes sombras das árvores, ao pálido luar, tomavam formas espectrais que o amedrontavam. Figuravam-se-lhe braços ameaçadores, vultos embuçados que avançavam em passos subtis e parecia ouvir gritos, rumores de vozes ou lamentos doridos vindos do fundo da mata que negrejava para lá da casita.

— Que raio de vida esta, Senhor!... Perdoai-me Senhor Jesus, que eu já estou arrependido! E aquela mulher sem me responder, Senhor! Terá havido alguma desgraça?

Compungia-o a ideia de ter morto o escrivão. A mulher não lhe escrevera ainda, por isso não sabia se a sua vítima era deste mundo ou não. Uma tarde, em que ele viera a Santos, só pode regressar ao sitio, pela tarde da noite. Estava um esplêndido luar e a estrada do Cubatão, muito branca, insinuava-se pelo arvoredo e perdia-se nas sombras quietas. Era grande o silêncio e as sombras das árvores que se despejavam sobre a estrada, tornavam-na, por vezes, negra, mas logo adiante a lua reaparecia alumiando o caminho.

Ele caminhava a olhar o céu todo estrelado onde a lua brilhava. De repente, um grito silvou na mata. O Bentevi deteve o andar, olhando em roda. O luar cada vez mais brilhante, refletia na água quieta do rio que ladeava a estrada. Bentevi retomou o caminho, mas não havia dado dez passos quando, de novo, ecoou o mesmo, grito agudo que desta vez parecia proferir o nome dele: Bentevi!  O pescador sentiu um arrepio de medo e ficou a olhar, mas tudo era mato e sombra, nem vivaalma, nem uma luzinha dum rancho! Uma voz interior parecia dizer-lhe que não prosseguisse, mas ele dando mais uns passos ouviu novamente o mesmo grito agudo: Bentevi!

Estremeceu violentamente. Persignou-se e ficou preso á terra, agarrado ao solo como aquelas árvores frondosas que pareciam esconder o assombro. 

Uma ideia sinistra lhe veio aumentar o pavor. Seria um lobisomem? Seria a alma do escrivão? Levantou os olhos ao céu e uma estrela cadente riscou o espaço.

— «Deus te guie!

Seguidamente o mesmo grito lamentoso que parecia desferido por alguém que sofria: Bentevi!

Levou a mão à cinta e apertou a coronha da garrucha e, sacando-a para fora, levou-a à altura dos olhos e fez fogo ao acaso, Um grande estrondo ecoou no silêncio rolando trovejantemente. Bentevi!! Benteviii!!

Conjuntamente com estes gritos um ruflo de asas cortou o espaço sinistramente,

— Valha-me o Senhor Jesus de Ílhavo!

E com os dedos crispados, arrancou de sob o peito da camisa a medalhinha com a imagem do Senhor Jesus de Ílhavo que a mulher lhe pusera ao pescoço na noite da sua fuga. Segurando na mão fechada a pequenina medalha levantou ao ar o braço, como que a esconjurar o perigo e lá foi seguindo vagarosamente a estrada, ouvindo a voz ou ave agoirenta, pronunciar, já muito longe: Bentevi! Benteviiii!

Ao outro dia, dificilmente puderam convencer o pescador da existência nas matas brasileiras duma ave que canta pronunciando o seu verdadeiro nome: Bentevi!

Desanuviou-se a alma do nosso homem quando passado dois dias recebeu a primeira carta da mulher em que lhe dizia ... o escrivão escapou, mas agradece-o ao Senhor Jesus de Ílhavo a quem fiz a promessa, enquanto viva for, se o escrivão escapasse e tu chegasses a porto de salvamento, de ir todos os anos na procissão, vestida de Magdalena ... Nesse ano promoveram ao Senhor Jesus de Ílhavo, festa rija. É que dos Brasis chegará farta esmola e ordem expressa para que a função fosse de arromba.

João Teles, in jornal O Ilhavense
de 2 de Setembro de 1923.


quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Imagem de Nossa Senhora da Saúde da Costa Nova do Prado

 

In Invocações Marianas na Diocese de Aveiro, Pe. Domingos Rebelo, 1988

Calcário policromado

Capela da Costa Nova do Prado, Gafanha da Encarnação, século XVI (?)

66,5 alt x 24 larg cm

Capela do Cemitério da Gafanha da Encarnação 1932

 

in jornal O Ilhavense, nº945, 1 janeiro 1933

Gafanha da Encarnação - Benção da Capela do Cemitério

Dia 9 de Dezembro último. A manhã sempre serena e linda, parecendo associar-se, com tristeza de outono, ao ato que ali vai ter lugar. Pelas 8 horas sai da igreja matriz a Irmandade da Senhora da Encarnação com o reverendo Prior da freguesia, dois seminaristas e muito povo no coice (um cortejo caminhando no comprimento de dois quilómetros). Entra-se no cemitério! Amplo e belo campo santo, bem situado, longe da povoação, em lugar pitoreseo e alegre, mais parecendo um jardim-dormitório do que uma necrópole; um excepcional campo sagrado, sem aquele pesado aspecto lúgubre, tristonho, da maior parte dos cemitérios do país. Abre-se a capela das encomendações, concluida há poucos dias. À direita, uma sacristia e à esquerda, uma sala para autópsias.

Na tribuna, um Cristo agonizante, de tristes olhos para o chão, bela imagem do Senhor dos Aflitos, parecendo pedir dali misericórdia para os defuntos que entram naquele silêncio-eternidade.

Festa de Nossa Senhora do Carmo da Gafanha de 1932

 in jornal O Ilhavense, nº927, 21 agosto de 1932


Festas & Romarias: SENHORA DO CARMO

Hoje, festeja-se na Gafanha do Sul a imagem da Senhora do Carmo, a que assiste a Banda Bingre Canelensee a a Filarmónica Ilhavense. Como é o primeiro ano que se faz a festa, depois de construida a estrada daquele lugar, de esperar é que seja muito concorrida.

Roubo do espólio da Capela da Ermida em 28 Abril 1932

 in jornal O Ilhavense, nº911, 1 de maio de 1932

Roubo importante:

Na sexta-feira passada, à tarde, quando o sr. Joaquim Rezende, lavrador, do lugar da Carvalheira andava no cultivo de uma terra com ontras pessoas de sua familia, os gatunos, que ainda se não sabe quem sejam, entraram-lhe em casa e roubaram-lhe 3.800$00 em dinheiro, um cordão de ouro, uma corrente e 4 ligas do mesmo metal e 4 resplendores de prata da imagem da Senhora do Rosário da Ermida, de cuja confraria o sr. Rezende é tesoureiro. A autoridade administrativa procede às investigações.

sábado, 27 de maio de 2023

Parocos de Ílhavo: Pe. Diamantino Ribau (f. 1933)

 O Pe. Diamantino Ribau natural da Cale da Vila, Gafanha da Nazaré, Ílhavo faleceu com pouco mais de vinte anos. Foi pároco de Chãos (Tomar) e à data da morte em Fevereiro de 1933 era pároco de Amoreira da Gândara. Este jovem padre era sobrinho do Pe. José Maria Ribau, prior de Fermentelos e possuia invulgres faculdades de inteligencia, sendo um dos alunos mais distintos do seminário de Coimbra.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Coagitando: o roubo da lâmpada de Ílhavo

 in jornal 'O Ilhavense' de 1 de Julho de 1961

"Á santa ingenuidade do nosso povo
Ainda sobre o roubo da Lâmpada"

Ora tentemos pôr as coisas no seu devido lugar...
A lâmpada que o Sr. José Balde trouxe de Newark (América do Norte), oferta do sr. Vasco Jardim que a havia comprado  numa loja de um judeu que lhe afirmou ser a autêntica lâmpada
roubada, há 200 (?) anos da
igreja de Ílhavo, como é que teria
ido parar àquele país?
Cogitemos: há coisa de 36, representou-se em Ílhavo a
primeira revista para adultos, de
costumes de Ílhavo. Era protagonista
desse trabalho teatral, que
causou um sucesso enorme, o
«Francês das Notas» que veio visitar
à nossa terra. E foi ele, senhores,
que trouxe para Ílhavo a
lâmpada roubada há muitos anos.
Relembremos a cena respectiva:

3º ACTO:
CENA XLV
(Entram várias personagens com lanternas na mão, em camisa
de dormir, e em atitude de quem
procura alguma coisa)

FRANCÊS | (recuando amedrontado)
- Quem são aqueles fantasmas, sr Tinoco?

TINOCO - Os lâmpadas monsieur. são fogos fátuos à procura da lâmpada que há tempo nos roubaram.
FRANCÊS (aliviado) - Ah! Não ganhei para o susto (áparte) julguei que era outra vez a maldita 'caveira'.

TINOCO - Não se arreceie que não fazem mala ninguém.

OS LÂMPADAS (cantam):
Digam depressa
E sem demora
Se a nossa lâmpada
Já aqui mora. 
Ouvimos dizer
Mais de uma vez
Que quem a traz
É o «Francês».

Côro
Venham cá, venham cá
Venham todos procurar
Nossa lâmpada adorada
Que nos vieram roubar.
Há tanto ano
Que já lá vai
E não sabemos
Quem é seu pai.
E a brincadeira
Sem tom, nem graça
Foi repetida
Com a da Praça.

Côro

FRANCÊS
Vou-lhes fazer
Uma surpresa
Tomem a lâmpada (do teto desce uma lâmpada)
Limpa e acesa. 
Mandem dizer 
Para o Pará 
Que quem a trouxe
Foi cá moi.

OS LÂMPADAS (desatam à lâmpada e levam-na, cantando)
Vamos lá, vamos lá, 
É esta toda inteira,
Foi limpa e limpa está
Ai que lâmpada brejeira.
(Saem ao som da música)

Ora esta cena foi um delírio na plateia, e bisada umas poucas de vezes. A lâmpada, roubada (?) há quase dois séculos aparecia finalmente em Ílhavo, trazida pela mão do "Francês das Notas". Como se explica tal?
Julga-se que, quando da 3.º invasão francesa, em 1810, sob o comando do marechal Massena, aqueles tivessem assaltado a casa dos ladrões onde o precioso objeto estaria oculto há mais de 50 anos, e na sua retirada para França, após a bordoada que apanharam no Bussaco, a levassem para a França. Aí o "Francês das Notas" adquiriu-a por qualquer preço, num prestamista e sabendo da ansiedade que o povo de Ílhavo manifestava por reaver a 'lâmpada adorada', e como fosse convidado a visitar a nossa terra, fez a surpresa de a trazer, restituindo-a.

Mas então como apareceu ela agora na América? 
O caso deve explicar-se da seguinte maneira. Ao tempo do espetáculo da revista, há uns bons 36 anos, estavam cá uns poucos de luso-americanos que tinham vindo de visita a suas famílias. Um deles tinha emprestado, para representação do número 'Americano, um fato de cowboy que mandara para o teatro dentro de uma sua mala, Quando os figurantes da cena  'Os lâmpadas' entraram de rebolão na sala onde tinham que se vestir para a última cena, que era a apoteose final da revista, o que trazia a lâmpada atirou-se para a mala que o americano mandara para o teatro com o fato. Findo o espetáculo, aquele nosso conterrâneo foi buscar o que emprestara e levou-a para casa. Mas como no dia seguinte teve de sair para a América, levou, sem dar por isso, a lâmpada para aquele país.
Caladinho como um rato quando a descobriu, lá a foi conservando. Mas os portugueses atravessaram depois, ali, uma crise enorme. Os nossos homens estiveram desempregados algum tempo e o ilhavense amigo, numa hora de aperto, teve que utilizar o crédito de um prestamista judeu, deixando-lhe, como penhor, a lâmpada de Ílhavo que, sem concorrer para isso, lhe surgiu na américa.
E aí está explicada a razão por que o precioso objeto foi adquirido agora pelo sr. Vasco Jardim que a ofereceu ao sr. José Balde para a trazer para Ílhavo.

Para terminar estas notas e ainda como confirmação do que acima expomos, vamos ainda
transcrever da revista "Francês das Notas" parte da Cena seguinte aquela a que fizemos referência.
É o diálogo entre Tinoco e o Francês:

TINOCO - Oh! meu caro Francês!
Então estava tão caladinho com a surpresa que nos quis fazer? A nossa lâmpada! A nossa
querida lâmpada!
Mas diga-me, monsieur, como obteve esta preciosidade que há tantos anos era procurada com um afã, uma solicitude inaudita?

FRANCÊS - Foi o acaso que ma trouxe às mãos, meu caro Tinoco.

TINOCO - Conte-me lá isso, mon cher.

FRANCÊS - Quando saí de França, para empreender esta viagem, que tinha por objetivo
fazer a felicidade de Ílhavo, entrei casualmente num adelo que tinha, numa vitrina, esta lâmpada exposta com este letreiro: Preciosidade de Ílhavo (Vende-se).

TINOCO (interessado) - E depois?

FRANCÊS - Fiquei radiante e imediatamente a adquiri, protestando logo fazer-vos, com ela uma surpresa. Sabia que vos tinha sido roubada, por intermédio do antigo jornal "O Brado" que publicou um artigo intitulado: "Costumes e Gente de Ílhavo" e onde minuciosamente vinha descrito o descarado roubo. Agora aí a tendes. Não a deixeis 'limpar' de novo.

TINOCO - Oh! Isso nunca! Vai ser guardada num cofre forte com sentinela à vista. 
Obrigado, meu caro Francês. Prestou ao povo de Ílhavo um alto favor.

Mal diria o pobre do Tinoco, (papel desempenhado, com mestria, pelo nosso amigo sr. João Teles) que, no dia seguinte, já ninguém sabia novamente onde parava a lâmpada, ficando todos convencidos de que ela havia sido outra vez roubada.
Mas não! Foi, sim, conduzida por engano, numa mala, para a América do Norte, onde agora foi adquirida e de novo trazida para Ílhavo. 
A lâmpada! Símbolo da ingenuidade de um povo tão bom, que deixa envolver-se na corrente de uma lenda que é o paradigma da sua singeleza.


sábado, 18 de março de 2023

Histórias e Mistérios de Ílhavo: a quadrilha do Badaco


 A QUADRILHA DO BADACO - na vizinha Soza, o Badaco, o Marques e o Chantôrro cometeram a tentativa de assassínio do padre de Soza. O Badaco foi morto a tiro e enterrado no celeiro de Salgueiro

Foi no ano de 1850, época em que toda a Europa vivia harmoniosamente, que na vizinha Vila de Soza nasceu o Miguel Chantôrro, filho de um acérrimo partidário do estadista Mariano de Carvalho e que, no lugar do Boco, nasce igualmente uma criança descendente de uma família de apelido Marques e no lugar de Salgueiro, uma outra, descendente da família Badaco.

Estas três crianças, aí por 1859, frequentavam a escola da Vila de Soza, na qual era mestre o sr. padre José da Graça, conjuntamente com mais trinta companheiros da vila e suas vizinhanças. 

Os três tornaram-se em breve grandes amigos e camaradas. E com a idade, foi nascendo neles uma certa tendência para a maldade. E assim é que, nas horas de recreio, os três combinavam assaltos à quinta da Senhora Maia, desbastando árvores de fruto, talando campos, esgalhando árvores. 

Comandava esta pequena quadrilha, o mais esperto de todos - o Badaco – que à finura aliava a temeridade.

Um dia resolveram assaltar o estabelecimento da Sra. Maria Rodrigues, roubando-lhe 12 grosas de botões que depois vendiam aos condiscípulos para o jogo do Rapa. 

Sendo as queixas dos seus desacatos contínuas o bom do padre-mestre resolveu um dia expulsá-los da escola. 

E os três, já então rapazotes espigados, ouvindo contar as façanhas do Zé do Telhado, acordaram entre si imitar o famigerado salteador e, pelo escuro da noite, ei-los pelos caminhos de Salgueiro, Lavandeira, Ouca e Quintã, assaltando os transeuntes exigindo deles a bolsa ou a vida. 

Aproximava-se o tempo da Semana Santa, e os partidários de Mariano de Carvalho, formaram um “complot” contra o Reitor de Soza, José Pimentel de Quadros, natural de Vagos. Os políticos cada vez mais acesos, juraram guerra de morte ao bom Reitor. 

E para fazer desaparecer o pobre clérigo, foi convidado o Chantôrro, que devia praticar o crime na Sexta-feira Santa.

O atentado cometeu-se, de facto, recebendo o facínora, pelo seu gesto, 50 libras em ouro, e sendo o ato previamente festejado no lugar de Fareja, com um banquete em casa de João Estroina, inimigo figadal do Reitor, que escapou milagrosamente,

E assim naquela Sexta-feira, pelas 11 horas da noite, quando o Reitor de Soza, depois de ter assistido ao ofício das Trevas, se dirigia para sua casa que ficava ao fundo da rua dos Louros, hoje rua Dr. Brito, foi alvejado com um tiro de espingarda caçadeira, alojando-se-lhe a carga num ombro, mas não o matando.

No dia seguinte foram detidos vários indivíduos dentre os quais o Chantôrro. Mas como nada se pudesse provar contra eles, foram postos em liberdade. 

Livre o Chantôrro das consequências desta proeza, o Badaco, chefe da quadrilha, resolveu assaltar a vivenda do sr. padre José Ribeiro, na Lavandeira, caminho para Ílhavo, e assassinar o bom do padre. 

O assalto foi combinado para a noite de Natal. No dia 24 de Dezembro, pelas 12 horas, os bandidos dirigiram-se os três aquele lugar.

A noite estava fria e tenebrosa. O vento sibilava tragicamente. Os raios fuzilavam e o trovão ribombava. Os facínoras, que nada temiam, dirigiram-se para o sinistro cometimento.

Ao chegarem ao pinhal da Petronilha, que fica entre Salgueiro e Lavandeira, talvez acordados por algum remorso, discutiram entre si:

— E se não matássemos o bom do padre, que só nos tem feito bem? – disse o Marques.

— É verdade. Ainda há dias nos deu ceia a todos—repetiu Chantôrro.

— Está bem, respondeu o Badaco! Mas então vamos exigir-lhe que nos entregue 50 libras, para passarmos os dias de Natal.

— E quem havemos de mandar lá?

— A Moria Carvalha, que mora lá em baixo.

A Carvalha era uma infeliz mulher, que vivia num casinhoto miserável, ao fundo do lugar. Para lá se encaminharam os facínoras. E ao chegarem à vivenda da pobre mulher, perto das duas horas da madrugada, o Badaco aproximou-se de um postigo do velho pardieiro, batendo três fortes pancadas no janelo.

— Quem está aí?—preguntou a mulher cheia de medo.

— É o Badaco. Levanta-te que ninguém te faz mal.

A infeliz, mal agasalhada, tremendo como varas verdes, veio à fala com os criminosos.

E estes depois de a peitarem a ir entregar ao sr. padre José uma carta, em que lhe exigiam a entrega de 50 libras, foram aguardar o resultado do atrevido lance para o pinhal da Petronilha.

Não sabemos o que se passou entre a Carvalha e o sr. padre José Ribeiro. Mas o que é verdade é que dai a pouco, estavam os três criminosos a repartir entre si a produto do seu roubo, tendo dado 5 libras à Carvalha. E dessa data em diante o sr. Padre José Ribeiro, sentia-se ocultamente protegido, pois nunca mais lhe aconteceu mal algum, até ao final da sua vida.

Não ficou por aqui, porém, a atuação da quadrilha do Badaco. 

Certa noite os meliantes resolveram assaltar uma casa de Ouca. Pela chaminé dessa casa desceu o Marques, na intenção de abrir as portas aos companheiros que estavam do lado de fora. Deu-se, porém, o caso, de na cozinha estar ainda a tratar da comida para os suínos, uma criada da casa, que vendo descer pela chaminé o intruso, se agarrou a ele, lutando e gritando.

Da refrega saiu a pobre mulher ensopada em sangue. Mas o Marques, que fora o atrevido salteador, teve de abrir apressadamente a porta da cozinha é dar às de Vila Diogo, com os companheiros, que aguardavam lá fora que ele lhes desse o sinal da entrada.

Foram todos presos, mas negaram o crime, e de novo gozaram a liberdade. 

Passou-se algum tempo em que se não falou de mais assaltos da quadrilha. Jugava o povo que eles se tinham arrependido do mau caminho que trilhavam.

Puro engano. Os três miseráveis, deram mas é outra faceta aos seus malévolos intentos. E percorrendo todas as feiras do distrito, aplicavam a sua atividade no lucrativo negócio de carteiristas. Ora, no dia 21 de Setembro de certo ano, regressava a tripeça da feira da Oliveirinha, onde haviam feito boa colheita.

Chegados ao lugar das Quintãs entraram na taberna de um tal Polónio, e, demorando-se ali até à 1 hora da madrugada, resolveram assaltar nessa noite a casa da Chorinca, viúva de um rico proprietário dali. Pelas 2 horas da madrugada, por meio de chaves falsas, penetraram no palacete da viúva, donde roubaram joias no valor de 20 contos.

Pressentidos, porém, pelos criados, são por estes perseguidos e pelo povo, que acorreu as gritos de socorro, até ao lugar de Salgueiro, onde o Badaco é alvejado por 2 tiros de espingarda, por Pedro da Rocha, de Mira, mas ao tempo criado dos Gama, sendo morto e sepultado próximo do celeiro daquele lugar. O Marques e o Chantôrro, que eram os condutores das joias, conseguiram escapar à perseguição e dirigiram-se, pelo Porto de Ílhavo, lugar que fica entre Salgueiro e Nariz, para Tentúgal, onde chegaram pelas 10 horas da manhã.

Como nesse dia se realizasse naquele lugar um importante mercado, os dois assaltantes procuraram vender as joias, com 50% a menos do seu valor, a um joalheiro de Coimbra, de nome Ferraz, que desconfiando da fartura, comunicou o caso às autoridades que não tardaram a prender os dois patifes e a conduzi-los à Penitenciaria daquela cidade, donde saíram mais tarde, numa leva em que ia o José do Telhado, para as costas de África, donde nunca mais voltaram.

O celeiro de Salgueiro


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

A Procissão das Cinzas em Ílhavo

(in jornal 'O Nauta', 28 de Fevereiro de 1942)

"Do templo paroquial desta Vila saiu no último domingo a procissão das Cinzas em que foram incorporados seis andores ostentando as belas imagens da Virgem (do Tadim)*, São Francisco de Santa Clara, da rainha Santa Isabel, Santo Ivo e da Ordem. Assistiram as duas filarmónicas da terra - a ‘velha’ e a ‘nova’ - que executaram marchas sentimentais entre elas a maravilhosa marcha fúnebre de Bernardo Pinto Camelo - Dor d'Alma - que também foi executada pela filarmónica da Vista Alegre no funeral da saudosa esposa do ilustre diretor técnico da fábrica da Vista Alegre."

*curiosa referencia à Virgem da Imaculada Conceição da autoria de Guilherme Thedim, ao culto na Igreja paroquial de Ílhavo.

(in jornal 'O Nauta', 27 de Março de 1943)

No domingo imediato à quarta-feira de Cinzas, saiu desta Igreja Matriz de Ílhavo a majestosa procissão de Cinzas, incorporando as piedosas imagens de Santo Ivo, São Francisco e Santa Clara, maravilhas da arte dos ilhavenses Anselmo Ferreira, Manuel Paes Guerra e Gabriel Pereira da Bela (o Sardinheira).