quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Festa de Nossa Senhora do Carmo da Gafanha de 1932

 in jornal O Ilhavense, nº927, 21 agosto de 1932


Festas & Romarias: SENHORA DO CARMO

Hoje, festeja-se na Gafanha do Sul a imagem da Senhora do Carmo, a que assiste a Banda Bingre Canelensee a a Filarmónica Ilhavense. Como é o primeiro ano que se faz a festa, depois de construida a estrada daquele lugar, de esperar é que seja muito concorrida.

Roubo do espólio da Capela da Ermida em 28 Abril 1932

 in jornal O Ilhavense, nº911, 1 de maio de 1932

Roubo importante:

Na sexta-feira passada, à tarde, quando o sr. Joaquim Rezende, lavrador, do lugar da Carvalheira andava no cultivo de uma terra com ontras pessoas de sua familia, os gatunos, que ainda se não sabe quem sejam, entraram-lhe em casa e roubaram-lhe 3.800$00 em dinheiro, um cordão de ouro, uma corrente e 4 ligas do mesmo metal e 4 resplendores de prata da imagem da Senhora do Rosário da Ermida, de cuja confraria o sr. Rezende é tesoureiro. A autoridade administrativa procede às investigações.

sábado, 27 de maio de 2023

Parocos de Ílhavo: Pe. Diamantino Ribau (f. 1933)

 O Pe. Diamantino Ribau natural da Cale da Vila, Gafanha da Nazaré, Ílhavo faleceu com pouco mais de vinte anos. Foi pároco de Chãos (Tomar) e à data da morte em Fevereiro de 1933 era pároco de Amoreira da Gândara. Este jovem padre era sobrinho do Pe. José Maria Ribau, prior de Fermentelos e possuia invulgres faculdades de inteligencia, sendo um dos alunos mais distintos do seminário de Coimbra.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Coagitando: o roubo da lâmpada de Ílhavo

 in jornal 'O Ilhavense' de 1 de Julho de 1961

"Á santa ingenuidade do nosso povo
Ainda sobre o roubo da Lâmpada"

Ora tentemos pôr as coisas no seu devido lugar...
A lâmpada que o Sr. José Balde trouxe de Newark (América do Norte), oferta do sr. Vasco Jardim que a havia comprado  numa loja de um judeu que lhe afirmou ser a autêntica lâmpada
roubada, há 200 (?) anos da
igreja de Ílhavo, como é que teria
ido parar àquele país?
Cogitemos: há coisa de 36, representou-se em Ílhavo a
primeira revista para adultos, de
costumes de Ílhavo. Era protagonista
desse trabalho teatral, que
causou um sucesso enorme, o
«Francês das Notas» que veio visitar
à nossa terra. E foi ele, senhores,
que trouxe para Ílhavo a
lâmpada roubada há muitos anos.
Relembremos a cena respectiva:

3º ACTO:
CENA XLV
(Entram várias personagens com lanternas na mão, em camisa
de dormir, e em atitude de quem
procura alguma coisa)

FRANCÊS | (recuando amedrontado)
- Quem são aqueles fantasmas, sr Tinoco?

TINOCO - Os lâmpadas monsieur. são fogos fátuos à procura da lâmpada que há tempo nos roubaram.
FRANCÊS (aliviado) - Ah! Não ganhei para o susto (áparte) julguei que era outra vez a maldita 'caveira'.

TINOCO - Não se arreceie que não fazem mala ninguém.

OS LÂMPADAS (cantam):
Digam depressa
E sem demora
Se a nossa lâmpada
Já aqui mora. 
Ouvimos dizer
Mais de uma vez
Que quem a traz
É o «Francês».

Côro
Venham cá, venham cá
Venham todos procurar
Nossa lâmpada adorada
Que nos vieram roubar.
Há tanto ano
Que já lá vai
E não sabemos
Quem é seu pai.
E a brincadeira
Sem tom, nem graça
Foi repetida
Com a da Praça.

Côro

FRANCÊS
Vou-lhes fazer
Uma surpresa
Tomem a lâmpada (do teto desce uma lâmpada)
Limpa e acesa. 
Mandem dizer 
Para o Pará 
Que quem a trouxe
Foi cá moi.

OS LÂMPADAS (desatam à lâmpada e levam-na, cantando)
Vamos lá, vamos lá, 
É esta toda inteira,
Foi limpa e limpa está
Ai que lâmpada brejeira.
(Saem ao som da música)

Ora esta cena foi um delírio na plateia, e bisada umas poucas de vezes. A lâmpada, roubada (?) há quase dois séculos aparecia finalmente em Ílhavo, trazida pela mão do "Francês das Notas". Como se explica tal?
Julga-se que, quando da 3.º invasão francesa, em 1810, sob o comando do marechal Massena, aqueles tivessem assaltado a casa dos ladrões onde o precioso objeto estaria oculto há mais de 50 anos, e na sua retirada para França, após a bordoada que apanharam no Bussaco, a levassem para a França. Aí o "Francês das Notas" adquiriu-a por qualquer preço, num prestamista e sabendo da ansiedade que o povo de Ílhavo manifestava por reaver a 'lâmpada adorada', e como fosse convidado a visitar a nossa terra, fez a surpresa de a trazer, restituindo-a.

Mas então como apareceu ela agora na América? 
O caso deve explicar-se da seguinte maneira. Ao tempo do espetáculo da revista, há uns bons 36 anos, estavam cá uns poucos de luso-americanos que tinham vindo de visita a suas famílias. Um deles tinha emprestado, para representação do número 'Americano, um fato de cowboy que mandara para o teatro dentro de uma sua mala, Quando os figurantes da cena  'Os lâmpadas' entraram de rebolão na sala onde tinham que se vestir para a última cena, que era a apoteose final da revista, o que trazia a lâmpada atirou-se para a mala que o americano mandara para o teatro com o fato. Findo o espetáculo, aquele nosso conterrâneo foi buscar o que emprestara e levou-a para casa. Mas como no dia seguinte teve de sair para a América, levou, sem dar por isso, a lâmpada para aquele país.
Caladinho como um rato quando a descobriu, lá a foi conservando. Mas os portugueses atravessaram depois, ali, uma crise enorme. Os nossos homens estiveram desempregados algum tempo e o ilhavense amigo, numa hora de aperto, teve que utilizar o crédito de um prestamista judeu, deixando-lhe, como penhor, a lâmpada de Ílhavo que, sem concorrer para isso, lhe surgiu na américa.
E aí está explicada a razão por que o precioso objeto foi adquirido agora pelo sr. Vasco Jardim que a ofereceu ao sr. José Balde para a trazer para Ílhavo.

Para terminar estas notas e ainda como confirmação do que acima expomos, vamos ainda
transcrever da revista "Francês das Notas" parte da Cena seguinte aquela a que fizemos referência.
É o diálogo entre Tinoco e o Francês:

TINOCO - Oh! meu caro Francês!
Então estava tão caladinho com a surpresa que nos quis fazer? A nossa lâmpada! A nossa
querida lâmpada!
Mas diga-me, monsieur, como obteve esta preciosidade que há tantos anos era procurada com um afã, uma solicitude inaudita?

FRANCÊS - Foi o acaso que ma trouxe às mãos, meu caro Tinoco.

TINOCO - Conte-me lá isso, mon cher.

FRANCÊS - Quando saí de França, para empreender esta viagem, que tinha por objetivo
fazer a felicidade de Ílhavo, entrei casualmente num adelo que tinha, numa vitrina, esta lâmpada exposta com este letreiro: Preciosidade de Ílhavo (Vende-se).

TINOCO (interessado) - E depois?

FRANCÊS - Fiquei radiante e imediatamente a adquiri, protestando logo fazer-vos, com ela uma surpresa. Sabia que vos tinha sido roubada, por intermédio do antigo jornal "O Brado" que publicou um artigo intitulado: "Costumes e Gente de Ílhavo" e onde minuciosamente vinha descrito o descarado roubo. Agora aí a tendes. Não a deixeis 'limpar' de novo.

TINOCO - Oh! Isso nunca! Vai ser guardada num cofre forte com sentinela à vista. 
Obrigado, meu caro Francês. Prestou ao povo de Ílhavo um alto favor.

Mal diria o pobre do Tinoco, (papel desempenhado, com mestria, pelo nosso amigo sr. João Teles) que, no dia seguinte, já ninguém sabia novamente onde parava a lâmpada, ficando todos convencidos de que ela havia sido outra vez roubada.
Mas não! Foi, sim, conduzida por engano, numa mala, para a América do Norte, onde agora foi adquirida e de novo trazida para Ílhavo. 
A lâmpada! Símbolo da ingenuidade de um povo tão bom, que deixa envolver-se na corrente de uma lenda que é o paradigma da sua singeleza.


sábado, 18 de março de 2023

Histórias e Mistérios de Ílhavo: a quadrilha do Badaco


 A QUADRILHA DO BADACO - na vizinha Soza, o Badaco, o Marques e o Chantôrro cometeram a tentativa de assassínio do padre de Soza. O Badaco foi morto a tiro e enterrado no celeiro de Salgueiro

Foi no ano de 1850, época em que toda a Europa vivia harmoniosamente, que na vizinha Vila de Soza nasceu o Miguel Chantôrro, filho de um acérrimo partidário do estadista Mariano de Carvalho e que, no lugar do Boco, nasce igualmente uma criança descendente de uma família de apelido Marques e no lugar de Salgueiro, uma outra, descendente da família Badaco.

Estas três crianças, aí por 1859, frequentavam a escola da Vila de Soza, na qual era mestre o sr. padre José da Graça, conjuntamente com mais trinta companheiros da vila e suas vizinhanças. 

Os três tornaram-se em breve grandes amigos e camaradas. E com a idade, foi nascendo neles uma certa tendência para a maldade. E assim é que, nas horas de recreio, os três combinavam assaltos à quinta da Senhora Maia, desbastando árvores de fruto, talando campos, esgalhando árvores. 

Comandava esta pequena quadrilha, o mais esperto de todos - o Badaco – que à finura aliava a temeridade.

Um dia resolveram assaltar o estabelecimento da Sra. Maria Rodrigues, roubando-lhe 12 grosas de botões que depois vendiam aos condiscípulos para o jogo do Rapa. 

Sendo as queixas dos seus desacatos contínuas o bom do padre-mestre resolveu um dia expulsá-los da escola. 

E os três, já então rapazotes espigados, ouvindo contar as façanhas do Zé do Telhado, acordaram entre si imitar o famigerado salteador e, pelo escuro da noite, ei-los pelos caminhos de Salgueiro, Lavandeira, Ouca e Quintã, assaltando os transeuntes exigindo deles a bolsa ou a vida. 

Aproximava-se o tempo da Semana Santa, e os partidários de Mariano de Carvalho, formaram um “complot” contra o Reitor de Soza, José Pimentel de Quadros, natural de Vagos. Os políticos cada vez mais acesos, juraram guerra de morte ao bom Reitor. 

E para fazer desaparecer o pobre clérigo, foi convidado o Chantôrro, que devia praticar o crime na Sexta-feira Santa.

O atentado cometeu-se, de facto, recebendo o facínora, pelo seu gesto, 50 libras em ouro, e sendo o ato previamente festejado no lugar de Fareja, com um banquete em casa de João Estroina, inimigo figadal do Reitor, que escapou milagrosamente,

E assim naquela Sexta-feira, pelas 11 horas da noite, quando o Reitor de Soza, depois de ter assistido ao ofício das Trevas, se dirigia para sua casa que ficava ao fundo da rua dos Louros, hoje rua Dr. Brito, foi alvejado com um tiro de espingarda caçadeira, alojando-se-lhe a carga num ombro, mas não o matando.

No dia seguinte foram detidos vários indivíduos dentre os quais o Chantôrro. Mas como nada se pudesse provar contra eles, foram postos em liberdade. 

Livre o Chantôrro das consequências desta proeza, o Badaco, chefe da quadrilha, resolveu assaltar a vivenda do sr. padre José Ribeiro, na Lavandeira, caminho para Ílhavo, e assassinar o bom do padre. 

O assalto foi combinado para a noite de Natal. No dia 24 de Dezembro, pelas 12 horas, os bandidos dirigiram-se os três aquele lugar.

A noite estava fria e tenebrosa. O vento sibilava tragicamente. Os raios fuzilavam e o trovão ribombava. Os facínoras, que nada temiam, dirigiram-se para o sinistro cometimento.

Ao chegarem ao pinhal da Petronilha, que fica entre Salgueiro e Lavandeira, talvez acordados por algum remorso, discutiram entre si:

— E se não matássemos o bom do padre, que só nos tem feito bem? – disse o Marques.

— É verdade. Ainda há dias nos deu ceia a todos—repetiu Chantôrro.

— Está bem, respondeu o Badaco! Mas então vamos exigir-lhe que nos entregue 50 libras, para passarmos os dias de Natal.

— E quem havemos de mandar lá?

— A Moria Carvalha, que mora lá em baixo.

A Carvalha era uma infeliz mulher, que vivia num casinhoto miserável, ao fundo do lugar. Para lá se encaminharam os facínoras. E ao chegarem à vivenda da pobre mulher, perto das duas horas da madrugada, o Badaco aproximou-se de um postigo do velho pardieiro, batendo três fortes pancadas no janelo.

— Quem está aí?—preguntou a mulher cheia de medo.

— É o Badaco. Levanta-te que ninguém te faz mal.

A infeliz, mal agasalhada, tremendo como varas verdes, veio à fala com os criminosos.

E estes depois de a peitarem a ir entregar ao sr. padre José uma carta, em que lhe exigiam a entrega de 50 libras, foram aguardar o resultado do atrevido lance para o pinhal da Petronilha.

Não sabemos o que se passou entre a Carvalha e o sr. padre José Ribeiro. Mas o que é verdade é que dai a pouco, estavam os três criminosos a repartir entre si a produto do seu roubo, tendo dado 5 libras à Carvalha. E dessa data em diante o sr. Padre José Ribeiro, sentia-se ocultamente protegido, pois nunca mais lhe aconteceu mal algum, até ao final da sua vida.

Não ficou por aqui, porém, a atuação da quadrilha do Badaco. 

Certa noite os meliantes resolveram assaltar uma casa de Ouca. Pela chaminé dessa casa desceu o Marques, na intenção de abrir as portas aos companheiros que estavam do lado de fora. Deu-se, porém, o caso, de na cozinha estar ainda a tratar da comida para os suínos, uma criada da casa, que vendo descer pela chaminé o intruso, se agarrou a ele, lutando e gritando.

Da refrega saiu a pobre mulher ensopada em sangue. Mas o Marques, que fora o atrevido salteador, teve de abrir apressadamente a porta da cozinha é dar às de Vila Diogo, com os companheiros, que aguardavam lá fora que ele lhes desse o sinal da entrada.

Foram todos presos, mas negaram o crime, e de novo gozaram a liberdade. 

Passou-se algum tempo em que se não falou de mais assaltos da quadrilha. Jugava o povo que eles se tinham arrependido do mau caminho que trilhavam.

Puro engano. Os três miseráveis, deram mas é outra faceta aos seus malévolos intentos. E percorrendo todas as feiras do distrito, aplicavam a sua atividade no lucrativo negócio de carteiristas. Ora, no dia 21 de Setembro de certo ano, regressava a tripeça da feira da Oliveirinha, onde haviam feito boa colheita.

Chegados ao lugar das Quintãs entraram na taberna de um tal Polónio, e, demorando-se ali até à 1 hora da madrugada, resolveram assaltar nessa noite a casa da Chorinca, viúva de um rico proprietário dali. Pelas 2 horas da madrugada, por meio de chaves falsas, penetraram no palacete da viúva, donde roubaram joias no valor de 20 contos.

Pressentidos, porém, pelos criados, são por estes perseguidos e pelo povo, que acorreu as gritos de socorro, até ao lugar de Salgueiro, onde o Badaco é alvejado por 2 tiros de espingarda, por Pedro da Rocha, de Mira, mas ao tempo criado dos Gama, sendo morto e sepultado próximo do celeiro daquele lugar. O Marques e o Chantôrro, que eram os condutores das joias, conseguiram escapar à perseguição e dirigiram-se, pelo Porto de Ílhavo, lugar que fica entre Salgueiro e Nariz, para Tentúgal, onde chegaram pelas 10 horas da manhã.

Como nesse dia se realizasse naquele lugar um importante mercado, os dois assaltantes procuraram vender as joias, com 50% a menos do seu valor, a um joalheiro de Coimbra, de nome Ferraz, que desconfiando da fartura, comunicou o caso às autoridades que não tardaram a prender os dois patifes e a conduzi-los à Penitenciaria daquela cidade, donde saíram mais tarde, numa leva em que ia o José do Telhado, para as costas de África, donde nunca mais voltaram.

O celeiro de Salgueiro


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

A Procissão das Cinzas em Ílhavo

(in jornal 'O Nauta', 28 de Fevereiro de 1942)

"Do templo paroquial desta Vila saiu no último domingo a procissão das Cinzas em que foram incorporados seis andores ostentando as belas imagens da Virgem (do Tadim)*, São Francisco de Santa Clara, da rainha Santa Isabel, Santo Ivo e da Ordem. Assistiram as duas filarmónicas da terra - a ‘velha’ e a ‘nova’ - que executaram marchas sentimentais entre elas a maravilhosa marcha fúnebre de Bernardo Pinto Camelo - Dor d'Alma - que também foi executada pela filarmónica da Vista Alegre no funeral da saudosa esposa do ilustre diretor técnico da fábrica da Vista Alegre."

*curiosa referencia à Virgem da Imaculada Conceição da autoria de Guilherme Thedim, ao culto na Igreja paroquial de Ílhavo.

(in jornal 'O Nauta', 27 de Março de 1943)

No domingo imediato à quarta-feira de Cinzas, saiu desta Igreja Matriz de Ílhavo a majestosa procissão de Cinzas, incorporando as piedosas imagens de Santo Ivo, São Francisco e Santa Clara, maravilhas da arte dos ilhavenses Anselmo Ferreira, Manuel Paes Guerra e Gabriel Pereira da Bela (o Sardinheira).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

História e Mistérios de Ílhavo: o fantasma da Rua Nova


Turismo 
dark é um termo utilizado para definir o turismo a lugares que possuem alguma relação com a morte (reais ou recriados), com o sofrimento, com a desgraça ou, de alguma forma, macabros.

Fotografia de José Fernandes Mano Agualusa,
Rosália Theodora Rainha e filhas Dorinda
 e Dárida habitantes na Casa da Rua Nova














Com o objetivo de criar em Ílhavo uma rota ou percurso para os entusiastas destas questões (morte, mortos-vivos, assassinos, ladrões, fantasmas, bruxas, lobisomens, sereias, e vampiros) relembramos a história do Fantasma da Rua Nova em Ílhavo, atual Rua João Carlos Gomes, noticiada no jornal 'O Ilhavense' de 17 de Março de 1929, descrito como a Casa Sinistra. A casa é hoje o restaurante Casa Velha do Hotel Ílhavo Plaza.

"É de há muito voz corrente por Ílhavo de que, em certa casa da Rua Nova, se vêm produzindo determinados acontecimentos de caráter estranho e até mesmo sobrenatural.

Convém, no entanto, informar o leitor que a casa em referência é um prédio de construção moderna, desse tipo característico que o urbanismo local criou entre nós de há vinte anos para cá (1929), e de que bastante se tem abusado: casa térrea rematada por mirante em chalé; grande porta central encimada pelo emblema náutico em granito, platibanda em balaústres, revestimento de azulejos, etc. A disposição interna é sabida: corredor central com aposentos laterais.

Circunda o prédio, um magnífico quintal, com lindas vistas para as vessadas, ribeiros e águas glaucas da ria, a que dá ingresso um amplo portão gradeado.

Como vê o leitor, não se trata de qualquer castelo roqueiro de tradições medievais ou solar bafiento e arcaico perdido em ermo serrano beirão, onde, em remotas eras, se tenha desenrolado alguma tragédia amorosa afogada em sangue por vingança cruel, sobre o qual a maldição de Deus e dos homens tenha caído implacável, fazendo sofrer, pelos seus desertos e sinistros salões sempre cerrados á luz criadora do dia, a alma penada de algum castelão ou gentil homem enganado e traído...

Nada disso!

O cenário é de hoje, os personagens são contemporâneos e bem conhecidos. Casa moderna, em rua alegremente ruidosa, é habitada de aluguer por uma família respeitável, cujas filhas, duma requintada distinção e risonha mocidade, lhe emprestam vida elegante, é feliz, perfumada, pelas rosas. e jacintos do seu jardim ...

Os aposentos, onde os factos estranhos se sucedem, decorados com arte rafinée, onde brilham lindos trabalhos de arte moderna aplicada, são alegres, inundados de luz, com um amoroso ambiente de conforto e distinção.

O corredor central!... Não; paremos aqui ... No entanto digamos apenas ... O corredor central, escasso de luz, frio no mosaico do seu piso, pesado na escariola embaciada das suas paredes, tem um ar triste, carregado, pressagiento ... E tem ele sido o teatro fatídico dos acontecimentos!... Deixemo-lo em paz, no nosso relato, se paz é possível existir ali...

Ora, até nós, chegara a informação de que há dias qualquer facto anormal se dera na fatídica casa da Rua Nova.

— Procure você a senhora (A), que algo poderá dizer-lhe! - disse-nos pessoa amiga.

Assim fizemos, neste justificado desejo de bem, informar os nossos leitores. A reportagem moderna impõe deveres e obrigações a que o jornalista não pode fugir. Dirigimo-nos, por isso, a casa da senhora (A) que mora ao fundo de um beco convergente da Rua Direita.

Era domingo, razão porque ela não fôra, como de costume, estar fora, granjeando honradamente a vida pelo trabalho. Fomos encontrá-la dando volta e arrumação à sua modesta, mas limpa e asseada casinha térrea de pobre. Sacudia o pó de alguns singelos móveis e ajeitava interessantes bibelôs que adornam a sala. Pelas paredes, brancas de jaspe, alguns quadros e pratos de decorações artísticas, e um sem número de policromos calendários reclames, dispostos com amorosa arte. Sobre uma coluna um solitário esfíngico, oferece-nos o perfume inebriante dum ramo de violetas e miosótis. Bendita seja a casa dos pobres onde reina a ordem e a limpeza...

— Desculpe-nos, minha senhora, se viemos interrompê-la no arranjo do seu ninho...

— Ora essa.. esteja à sua vontade. O que me quer?

—  Apenas que nos diga alguma coisa sobre o que presenciou há dias na casa da Rua Nova

— Oh! Por quem é não me avive semelhante facto Não sabe o quanto me faz sofrer. Meu Deus, meu Deus, não me abandoneis! Não, não! Deixe-me, por quem é; deixe em sossego o meu coração e os meus nervos! O que eu sofri, e o que eu tenho sofrido ultimamente!

E caiu semi-desfalecida sobre uma cadeira, ocultando o rosto nas suas finas e brancas mãos num gesto aflitivo de quem pretende evitar, ante os seus olhos mortificados, nova aparição do agoirento fantasma. Todo o seu corpo vibrava tremendo, imprimindo desencontrados movimentos á cadeira em que se apoiava. Era confrangedor e atemorizante, fazendo-nos vacilar no prosseguimento do nosso interrogatório. 

Procurámos animá-la.

— Então, então, tenha calma, sossegue, não vê que está em sua casa?

Voltou a si num gesto indeciso e cansado. Estava branca de neve, os olhos semicerrados, profundos e humedecidos. Sacudiu com abandono a sua cabeça de contornos impecáveis, abriu desmedidamente a sua boca outrora tão linda, e num grande hausto, respirando fundo, cobrou alento, enquanto ia limpando a fronte onde marinhavam contas de suor frio. 

E murmurou, então, num brando e rendido cicio:

— Eu costumo ir trabalhar para essa casa de quando em vez: pontear roupa, passar a ferro, etc. Estava, por isso, lá na quarta-feira última. O dia, triste é chuvoso, decorrera sem incidente, Mas, quase ao anoitecer, começámos a sentir em toda a casa um barulho inexplicável seguido dum bater forte de portas. Notei o facto, sendo-me dito pela filha mais velha da casa que não fizesse caso, porque isso era costume suceder não sabendo explicar a razão disso. Convém notar que no prédio só estávamos nós as duas e uma pequena vizinha. Não havia vento e todas as portas exteriores estavam fechadas.

— Onde trabalhavam? — interrogámos.

— No segundo compartimento da casa, ao lado nascente, que comunica com o corredor central. A certa altura, uma mesa que estava ao centro do aposento, começou agitando-se fortemente. Como sobre ela estava uma jarra de valor, avisei a dona da casa do risco que ela corria. Mas, nesse instante, a porta que dá para o corredor — oh, o fatídico e sinistro corredor! — abriu-se lentamente e, no seu limia, surgiu um vulto alto, espectral, envolto em roupagens brancas de longa cauda, olhos fixos em nós, agitando os braços lugubremente, e soltando um ruido estranho com o matraquear agoirento dos seus enormes dentes!... Avançava para nós a longas passadas, com riso satânico e petrificante evolvendo-lhe o rosto...

A aparição maldita quase nos tolheu os movimentos e fez emudecer. Eu, extremamente nervosa, agarrei-me com fúria á minha companheira que, transida de susto, me dizia a medo: 

— Largue-me, pelo amor de Deus, que quero fugir e não posso...

Eu, baixinho, atrapalhadamente, murmurava:

— Oh, alma minha não temas, vive constante na fé, que Jesus contigo é! Jesus! Jesus! Jesus!

Mas, num repelão violento, as minhas companheiras puderam fugir indo fechar-se na sala de jantar. Vendo-me só, ganhei forças e abalei também alcançando o quintal onde, abrindo o portão, gritei aflitivamente para a rua:

— Aqui d'el-rei! Acudam! Acudam!

Juntou-se gente, toda a vizinhança, que percorrendo a casa, nada encontrou. Apenas na sala de jantar as duas pequenas que ali se haviam refugiado, agarradas uma à outra gritavam, também, desesperadamente. De novo a nossa entrevistada se abandonou sobre um modesto divã, cansada, exausta por completo de forças, pelo relato dado que, avivando-lhe a estranha cena, fizera vibrar de novo os seus nervos.

Retirámo-nos agradecendo e cogitando maduramente sobre o que acabáramos de ouvir, contado com uma firmeza, sinceridade e ar de convicção, que fortemente nos impressionam. Como explicam os homens de ciência estes acontecimentos? Nós, não lhe fazemos comentários, limitando-nos ao simples relato dos factos que têm sido o assunto palpitante dos últimos dias na nossa terra."

Casa da Rua Nova (Rua João Carlos Gomes), Restaurante Casa Velha, 108, Ílhavo 


O sino e o relógio da igreja da Gafanha da Nazaré

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Como noticia o jornal O Ilhavense de 9 de Maio de 1930, tendo ganho a lotaria de Natal de 1929 Manuel Carlos Anastácio e Sebastião L. Conde compraram para a igreja da Gafanha da Nazaré uma máquina de relógio e um sino que ofereceram à freguesia

domingo, 28 de agosto de 2022

A decifração do enigmático "Ílhavo"

 

João Oliveira Coelho, 1953

O topónimo Ílhavo tem o mais íntimo parentesco com o de Aveiro!

Segundo a etimologia que apresentamos para o topónimo  de Aveiro, Ílhavo é  incontestavelmente, uma derivante de AVIA, como se torna evidente pela decomposição morfológica do seu étimo medieval, que em latim era ILLIABUM. Um notavel etimologo francês, o Prof. Albert Dauzat, demonstrou com eficiência que o prefixo ILLI (ou ILI), junto a certos topónimos, tem a significação de Vila e entre outros exemplos, cita o de ILLI-BERRIS, que traduzido é Vila-Nova.

Fundamentando-nos sobre as conclusões a que chegamos quando explicamos a etimologia de AVIARIUM para Aveiro, e agora ainda mais corroborada fica, se juntarmos ILLI  a AVIA, teremos formado o composto  ILLIAVIA, que nas eras medievais se grafava ILLIABUM, ILLIAVO e ILIAVO, de onde pela evolução natural proveio hoje o topónimo de Ílhavo.

Sendo assim, e estando plenamente convencidos de que nenhuma objecção serias se levantará o significado de Ílhavo fica por natureza definido.

Por consequência, sendo AVIA o vocábulo latino porque se designa a RIA, como vimos quando o estudámos, Ílhavo fica logicamente e concludentemente significando a VILA DA RIA.

Figueira da Foz, Setembro de 1953