domingo, 14 de junho de 2020

Relicário de São Francisco Marto, pastorinho de Fátima em Ílhavo

in jornal O Ilhavense de 15 de Junho 2020


Este artigo trata da identificação, salvaguarda e mediação de bens culturais de relevante interesse patrimonial e devocional na Diocese de Aveiro, pretendendo dar a conhecer a cruz peitoral-relicário do arcebispo de Évora, D. Manuel Trindade Salgueiro, montada sobre relíquia das ossadas de Francisco Marto, pastorinho de Fátima pertença do espólio da Paróquia de São Salvador de Ílhavo.
Cruz peitoral-relicário de São Francisco Marto ouro, ametista, diamantes, esmalte Ourivesaria Aliança, seculo XX, 1941 Legado do Arcebispo de Évora Dom Manuel Trindade Salgueiro à Igreja Paroquial de São Salvador de Ílhavo,  depositada por familiares no Museu Marítimo de Ílhavo
Cruz peitoral-relicário de São Francisco Marto
ouro, ametista, diamantes, esmalte
Ourivesaria Aliança, seculo XX, 1941
Legado do Arcebispo de Évora Dom Manuel Trindade Salgueiro
à Igreja Paroquial de São Salvador de Ílhavo, 
depositada por familiares no Museu Marítimo de Ílhavo

Muitos desconhecem que na igreja de Ílhavo existe esta especial relíquia de São Francisco Marto, pastorinho de Fátima, das poucas fora do santuário. 
A história cruza o momento da exumação das ossadas do pastorinho com a presença de D. Manuel Trindade Salgueiro.

Francisco, o pastorinho de Fátima, nasce a 11 de Junho de 1908 em Aljustrel, paróquia de Fátima, sendo o penúltimo dos sete filhos de Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus. 

Relembrando a pandemia atual, foi vítima da epidemia da gripe pneumónica que assolou o país, também conhecida por gripe espanhola, adoecendo a 18 de outubro de 1918, pouco mais de um ano depois da última Aparição da Virgem, doença que chegara a Portugal no meio desse ano e em pouco tempo causou a morte de dezenas de milhares de pessoas.

Morre serenamente pelas no dia 4 de Abril de 1919, aos 10 anos, sendo sepultado no cemitério de Fátima no dia seguinte.
Foi canonizado juntamente com a sua irmã Jacinta pelo Papa Francisco a 13 de maio de 2017 no Santuário de Fátima e centenário da aparição.

Os seus restos mortais foram identificados e exumados, em 17 de fevereiro de 1952, e trasladados para a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em 13 de março de 1952, onde repousa no braço direito do transepto. 

No dia da exumação terá sido entregue a D. Manuel Trindade Salgueiro, na altura aí presente como Arcebispo de Mitilene, um pequeno fragmento das ossadas do pastorinho doado pelo pai de Francisco, Manuel Marto, que o nosso bispo do mar devotamente resguardou juntamente com folha da oliveira da aparição, na sua cruz-peitoral. 
A sua cruz peitoral foi encomendada na Ourivesaria Aliança em 11 de Janeiro de 1941 e oferecida pelo povo de Ílhavo por subscrição a D. Manuel Trindade Salgueiro na sua sagração como Bispo de Helenópolis no dia 24 de Fevereiro de 1941 em Lisboa, missa presidida por D. António Antunes, Bispo-Conde de Coimbra e D. João da Silva Campos Neves, Bispo de Vatarba, coincidindo com o 20º aniversário da sua primeira missa.






sábado, 30 de maio de 2020

A Virgem da Penha de França de Ílhavo - Santuário Mariano 1707

Santuário Mariano e Historia das Imagens milagrosas de Nossa Senhora, 1707, Frei Agostinho de Santa Maria


A Virgem da Penha de França da Vista Alegre de Ílhavo

Partilho convosco a comunicação feita em 21-04-2018 sobre a Igreja da Vista Alegre de Ílhavo e o culto à Virgem da Penha de França pois muitos desconhecem o porquê da sua construção e dedicação.

Lisboa dedicou à Virgem da Penha de França (ou a Virgem de Simão Vela) uma das sua mais magníficas igrejas após a famosa batalha de Alcácer-Quibir, quando perdemos D. Sebastião, e após a pandemia da peste assolar Portugal em 1569, visto a vizinha Espanha se ter livrado do flagelo graças à intervenção de Nossa Senhora da Penha de França, o Senado da Câmara de Lisboa prometeu construir um grandioso templo, se ela livrasse a cidade da moléstia, o que fez em 1598.
Ainda hoje em tempos de pouca saúde a cidade de Lisboa lhe recorre.

A Igreja da Vista Alegre foi projectada para ser um grande santuário mariano em Aveiro, por voto do Bispo D. Manuel de Moura Manuel. Após termos ganho a independência ao domínio espanhol em 1640 e devido ao condicionamento da fronteira de peregrinação para o primitivo Santuário da Penha de França em Salamanca, D. Manuel de Moura Manuel, por especial devoção resolve dedicar à Virgem da Penha em Portugal, na sua quinta da Vista Alegre, este magnífico monumento, hoje monumento nacional e uma das mais belas igrejas do barroco inicial. Começando a sua construção em c. 1691 estaria já adiantada em 1694, data dos magníficos azulejos de Gabriel del Barco. Sabemos que a 15 de Julho de 1693, a arquitetura estaria terminada, instituindo-se no largo da Capela uma feira aos dias 13 que perdura nos dias da hoje.

Quem foi D. Manuel de Moura Manuel (1632-1699)?

D. Manuel de Moura Manuel nasce em Serpa em família nobre. Por parte do pai era neto de Dom Féliz de Gusmão que foi irmão de São Domingos e da parte da mãe descendente de D. Constança Manuel, rainha de Portugal que foi casada com o Sereníssimo Rei Dom Pedro I de Portugal e com o católico rei Dom Fernando de Castela e Leão.

Sendo o segundo filho, seu irmão Rui de Moura Manuel era senhor da Quinta da ermida em Ílhavo, tinha a opção de seguir dois caminhos: a carreira militar ou a carreira eclesiástica. Uma vez que o seu irmão Cristóvam era Frei, o seu tio D. Jorge de Melo era Bispo de Coimbra, por devoção, decidiu enveredar pelo caminho da religião católica.
Serviu nas guerras contra Espanha, antes denominada Castela, e foi conselheiro do Rei D. Pedro II. A sua formação foi na Universidade de Coimbra na qual se doutorou. A sua carreira de prestígio e logo após ter recebido o capelo da Universidade, 1659, foi provido a cónego de Lamego e Braga. Serviu a Inquisição durante 28 anos, em Évora como deputado, 1660, em Coimbra como inquisidor e presidente, 1666, tendo subido a Ministro do conselho geral da Inquisição no tribunal da corte de Lisboa e conselheiro do Sereníssimo Rei de Portugal, sendo depois reitor da Universidade de Coimbra, 1685, de onde saiu para assumir o bispado de Miranda do Douro, 1690. Em 1697 pede uma licença ao papa,não podendo fazer a visita ad limina por ter sido acometido de doença terrível que o pôs às portas da morte. Sabe-se que, para além do seu estado de saúde e o risco de viagens longínquas, haveria outra preocupação: a necessidade de dispor e assistir à fábrica de um sumptuosíssimo templo que, por voto, mandou fazer a Nossa Senhora sob a invocação da penha de França. Esta obra terá começado antes de assumir o bispado e com verbas vindas de bens patrimoniais e rendas de cargos anteriores a essa nomeação. Sabe-se também que D. Manuel tinha um gosto delicado por obras de arte que levou a que enriquecesse com o que de melhor existia no reino a magnífica Capela da Vista Alegre em Ílhavo (escultores, azulejadores, arquitetos, pintores - João Antunes, arquiteto regio, Claude Laprade, escultor , Gabriel del Barco (1648?-1706?), pintor)como confirma o estudo do Professor Ayres de Carvalho sobre estas encomendas de obras de grande valor artístico.

Como surgiu a devoção e culto de Nossa Senhora da Penha de França?
Simon Roland ou Simão Vale (1425/9 Maio 1434) era francês, nascido em Paris, filho de Rolan e Bárbara, nobres e ricos. Abandonou a riqueza e o conforto e dando tudo aos pobres e refugiou-se num mosteiro da Ordem Franciscana. Seu sobrenome Vela resultou de uma constante advertência, que lhe parecia ouvir do Céu: — "Simon, vela, e não durmas!", em suas prolongadas orações.
Recebendo, no convento, uma revelação mística da Virgem, esta lhe indicou que tinha que partir, em peregrinação, a fim de procurar a Penha de França.
— O que seria, onde estaria? — Em sua pátria?
Durante cinco anos, Simon andou, andou, inútilmente.
Avultavam, na Idade Média, as peregrinações ao túmulo do Apóstolo São Tiago, em Compostela. Seguiam o itinerário clássico da passagem pelo Santuário de Puy, tão famoso que se considerava sagrado o peregrino que o visitasse.
Com medalha de chumbo, de Nossa Senhora do Puy, servindo-lhe de salvo-conduto, Simon juntou-se a uma dessas romagens piedosas.
Acompanhou alguns peregrinos a Castela e a Salamanca, esperançoso de encontrar, entre os universitários, notícias da Penha de França. Mas, apesar de tão perto do lugar, permaneceu seis meses ainda, em buscas infrutíferas . Finalmente, uma tarde, meteu-se entre o povo, numa praça pública.
Ouviu um pastor referir-se à Penha de França, nome tão ansiosamente acalentado. Logo, empreendeu a caminhada para o sítio apontado. Difícil foi atingí-lo. Dias e dias, buscou, entre as fendas e grutas, o que desejava, até que, exausto, uma noite, foi surpreendido, pela fúria de uma tempestade,
no meio da qual se desprendeu uma pedra. Rolou, atingindo-o na cabeça e prostrando-o, desfalecido!
Na segunda noite, já, mais ou menos, refeito, em oração, ouviu a mesma voz que o acompanhava:
— Simon, vela y no duermas!
Repetia-se o aviso que o levou a trocar o nome de Rolan pelo de Vela. Na terceira noite, rezando, rezando sempre, percebeu extraordinário clarão, no meio do qual distinguiu uma cadeira tão adornada que parecia de ouro . Uma senhora formosíssima veio sentar-se ali. Trazia, nos braços, um menino encantador! Falou-lhe: — "Aqui, cavarás e o que achares deverás pôr no mais alto do monte, e uma casa farás. Tu a começarás e outros virão concluí-la. Estou satisfeita, meu filho."
Simon desceu a San Martin dei Castanar, onde encontrou cinco pastores, que se prontificaram a auxiliá-lo nas pesquisas. Após muito trabalho e muitos revezes, descobriram todos a desejada imagem da Virgem Maria, com o Menino Jesus, nos braços. Um dos pastores, escrivão, tudo anotou. Estavam em 19 de Maio de 1434.
Simon curvou a cabeça e tocou-a na imagem. Curou- se, imediatamente, da cicatriz que a pedra lhe fizera e que se agravara, com o frio e a falta de medicamento .
Conhecido o fato, organizaram-se romarias de preces
e construiu-se uma cabana, para abrigo do precioso achado, iniciador do Santuário da Virgem da Penha, na Espanha. Faleceu em 1437, cinco meses após o estabelecimento da Ordem Dominicana, com sete religiosos, na Penha de França. Quando exumado, o seu crânio apresentava ainda o sinal deixado pelo bloco de pedra.
O primitivo santuário da Virgem da Penha de França encontra-se na Província de Salamanca, numa linda e formosa região: “de La Sierra de Francia” (da Serra de França). Ali se contempla uma esplendorosa e singular paisagem que abrange a imensa planície castelhana, as montanhas das Hurdes e a Serra Estrela de Portugal.

O Património da Igreja da Vista Alegre:

A Capela de Nossa Senhora da Penha de França é um belo exemplo da arquitetura maneirista e do barroco. O seu altar-mor tem uma muito interessante representação do presépio e os tetos do espaço estão repletos de pinturas murais. O teto da capela-mor mostra-nos a Assunção da Virgem e o teto da nave da igreja a Árvore de Jessé. Na capela, destaque ainda para o conjunto de painéis de azulejos setecentistas de Gabriel del Barco, que representam cenas da vida da Virgem.
Esculpido em pedra de Ançã pelo escultor francês Claude Laprade, o túmulo monumental de D. Manuel de Moura Manuel e a representação da Virgem da fachada são de uma sensibilidade digna de se ver e denota um arrojo de modernidade para a época, os finais do século XVII.

Ao contrário das indicações do Vaticano, a estátua jacente do bispo não se encontra totalmente na horizontal com as mãos postas sobre o peito. Ao invés, a figura do bispo soergue-se do leito da morte e olha para a imagem da Nossa Senhora da Penha de França, a patrona da capela a quem era devoto. Com a mão direita a permitir o equilíbrio e a esquerda como que a começar um gesto a partir do peito, todo o movimento que a escultura imprime é de uma grande sensibilidade.

Ao avistar, no seu leito de morte, a Nossa Senhora da Penha de França, D. Manuel de Moura Manuel ergue-se para a santa e contempla a vida eterna, escapando assim aos braços da morte.

Todo o túmulo é de uma iconografia forte. Começa logo pelos dois leões de pedra que com dificuldade suportam o túmulo, indicando assim o peso da importância do defunto aqui sepultado. Ladeando o túmulo, surgem duas fénixes, em forma de carpideiras e, aos pés do leito da morte, um anjo que segura um crânio.

Sendo figura central do drama, a Nossa Senhora da Penha de França surge-nos em tamanho pequeno e descentrada, ao alto do lado direito de todo o conjunto monumental, para que o rosto de D. Manuel de Moura Manuel possa olhá-la de frente. A figura central é antes o tempo, apresentado como um velho, que está ladeado por dois anjos que levantam o véu da morte, permitindo assim ao bispo contemplar a vida eterna. No arco do conjunto estão esculpidas caveiras que ostentam chapéus representativos das mais elevadas classes sociais, numa clara mensagem de que não importa a importância que tenhamos em vivos, pois somos todos iguais perante a morte.

O túmulo de D. Manuel de Moura Manuel é uma obra-prima de rara sensibilidade e a mais importante peça da capela da Vista Alegre, assim conhecida por estar incluída no complexo do museu da bicentenária fábrica.

A Capela da Vista Alegre, em Ílhavo, Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, comunicação dedicada à Nossa Senhora da Penha de França, por Hugo Calão, mestre em História e Património pela Universidade do Porto e sobre o escultor francês Claude Laprade por Sílvia Ferreira doutorada em Historia pela Universidade de Lisboa. 21-04-2018

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Porcelana de colecção sobre a Paróquia de Ílhavo - Senhor Jesus dos Navegantes

Placa de porcelana Senhor Jesus dos Navegantes de Ílhavo
Edição da Comissão de Festas do Senhor Jesus dos Navegantes de 1999
Fabrico Publidecal Ílhavo



Jarro e bacia porcelana Senhor Jesus dos Navegantes de Ílhavo
Edição da Comissão de Festas do Senhor Jesus doa Navegantes de 1994
Fabrico Vidal Arte porcelana - Ílhavo
Série limitada a 250 exemplares


Floreira porcelana Senhor Jesus dos Navegantes de Ílhavo
Edição da Comissão de Festas do Senhor Jesus doa Navegantes de 1994
Fabrico Vidal Arte porcelana - Ílhavo
Série limitada a 250 exemplares



terça-feira, 28 de abril de 2020

Porcelana de colecção sobre a Paróquia de Ílhavo

Prato Capela da Ermida
Fábrica de porcelana da Vista Alegre
Legenda: Mandada Erigir por Alberto Ferreira Pinto Basto e oferecida ao povo
do lugar no ano de 1901. Aguarela de Palmiro Peixe (pintor)


Prato Capela de Nossa Senhora da Luz da Légua | Casa Nossa Senhora da Luz
Vidrocerâmica Aveiro


Prato Restauração da Capela de Santo António da Coutada
Fábrica de porcelana da Vista Alegre 1975


Prato Nossa Senhora da Luz da Légua - Ílhavo
Edição da Comissão de Festas de 1993
Porcelana de Arte Rôlo
























Jarra Nossa Senhora da Luz da Légua - Ílhavo
Edição da Comissão de Festas de 1993
Porcelana de Arte Rôlo





Prato Comissão de Festas Santo António da Coutada
Regipor Bonsucesso Porcelana Aradas-Aveiro



Porcelana de colecção sobre a Paróquia de Ílhavo

Prato Nossa Senhora do Pranto
Fábrica de porcelana da Vista Alegre Ílhavo
Edição da Comissão de Festas de 1999
Prato Nossa Senhora do Pranto
Regipor Bonsucesso porcelanas Aradas-Aveiro
Edição da Comissão de Festas de 2000


Travessa Nossa Senhora do Pranto
Fabrico Publidecal Ílhavo
Edição da Comissão de Festas de 1999


Porcelana de colecção sobre a Paróquia de Ílhavo

Prato Interior da Igreja Matriz de Ílhavo,
Fábrica de porcelana da Vista Alegre de Ílhavo, 1975

Prato Restauro da Igreja Matriz de Ílhavo
Fábrica de porcelana da Vista Alegre de Ílhavo, 1973

terça-feira, 21 de abril de 2020

Homem sem pressa de se revelar

Retábulo de altar de Santo António (pormenor), Igreja Matriz de Ílhavo, aguarela, 2014, Hugo Cálão copyright (©)
Recordo a esplêndida espera, modéstia, ou indiferença, que teve Santo António pela exibição dos seus talentos.
Os homens de Letras, todos os artistas, ardem quase sempre no anseio de vir a público com as suas criações. Fazem-no geralmente ainda na adolescência, antes de amadurecer nelas a experiência e os seus talentos. 
Na maior parte dos casos esses trabalhos serão sem valor, apenas, quando muito, um vago balbuciar do que virá depois. alguns terão mais tarde que se envergonhar dessa tentativa que nada vale, cortando-a do futuro rol das suas obras de mérito. Seria preferível trabalharem no silêncio, o que com a tecnologia de hoje é tão difícil, exercitando-se, corrigindo-se a si mesmos para só aparecerem na hora própria. 
Santo António de Vagos
Igreja Paroquial de Santo António de Vagos
aguarela sobre papel, 2020, Hugo Cálão copyright (©)
O caso de Santo António é, porém, um exemplo admirável. Esperou modestamente; instruiu-se ricamente nesses anos juvenis, como concluem os seus biógrafos.
Havia de descobrir dentro de si, como descobre todo o pensador ou artista, as ideias, as imagens, os raciocínios, a imaginação que inventa e cria. Vocação para a oratória, perceberia as frases acumularem-se dentro de si, ordenadas no espírito, prontas a virem aos lábios numa facilidade de água corrente, ou de água que se despenha em cascata, sem obstáculos à frente ou vencendo soberbamente todos os obstáculos. 
Noviço no Convento de Santa Cruz em Coimbra, oculto no Convento dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, de categoria pré-Universitária, estudou, reflectiu observou. Mais tarde, o exemplo dos mártires franciscanos de Marrocos leva-o a fazer-se também franciscano, para ser igualmente mártir.
E assim ruma à Itália, pobre frade que assiste a um Capítulo Geral de franciscanos, sob a presidência do próprio Francisco de Assis, sem que ninguém, por assim dizer, desse por ele. Terminado o Capítulo, junta-se a um grupo de frades que regressam, ainda um português sem nome. Só mostra o assombro da sua eloquência quando falta um pregador, na festividade da primeira missa dum sacerdote, pedindo-lhe em nome da obediência que suba ao púlpito e diga umas palavras. Foi um arrebatamento no auditório. São Francisco de Assis que estava longe, quando lhe contaram a maravilha da sua doutrina, terá exclamado: - Temos um bispo!
Queria certamente aludir ao prodígio de penetração dos seus sermões. Santo António de Lisboa começou tarde e morreria cedo. E bastou esse escasso tempo para que a sua fama se derramasse, para arrastar atrás de si multidões famintas da sua palavra e deixar uma pegada tão funda na História. É ainda hoje o franciscano mais popular, formando procissão os que vão visitar o seu túmulo e relíquias em Pádua.
A glória de Francisco de Assis, personalidade muito mais subtil e original do que o Santo português, está acima da capacidade de apreciação popular. É o Santo - imitação de Cristo - para os grandes espíritos de artistas e criadores.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo: Memória de um século




SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE ÍLHAVO: Memória de um século

No dia 10 de abril de 1919, há precisamente 100 anos, data da reunião que oficializou os seus estatutos, é criada a Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo.

Em 5 de maio de 1919 é iniciada a construção do Hospital de Ílhavo, obra que verá concluída a sua edificação em abril de 1920, com a colocação no cimo da fachada da icónica estátua representando a Caridade, oferecida por D. Maria da Luz Sarrico Teles e executada por António de Freitas, hábil canteiro de Aveiro.

Num Ílhavo onde todos se conheciam, este constante empreendimento foi labor da necessidade de dar resposta às faltas de cuidados de saúde e bem-estar, quase inexistentes até então, cumprindo a visão caritativa de dois principais pioneiros fundadores: Viriato Teles e Samuel Maia.

A atuação da Santa Casa de Ílhavo é um percurso atribulado, onde a dificuldade económica e financeira sempre colocou em risco a capacidade para tratar corretamente os doentes e desfavorecidos, situação agravada principalmente na década de 40 do século XX, pelos efeitos nefastos da II Grande Guerra Mundial, e que seria minimizada com as esmolas e dádivas recolhidas pelos ilhavenses (residentes e no estrangeiro: Brasil, Canadá, Newark, Nova Jersey, Califórnia) nas anuais festas de beneficência, bailes e cortejos de oferendas (1946-1966),  memórias que perduram na lembrança dos mais antigos.

Os médicos, enfermeiros, os cuidadores do passado e do presente, assim como as muitas faces que assumiram o pulso das decisões das várias provedorias, - prestando homenagem e recordando por ordem: Dr. Samuel Tavares Maia (1919), Viriato Teles (1920-27), Prof. João Marques Ramalheira (1927-30), Dr. Eduardo Vaz Craveiro (1930-41), Dr. Vítor Manuel Machado Gomes (1941-44 e 1953-57), Pe. Alberto Tavares de Sousa (1945-46), Cap. Francisco António de Abreu (1946-52), Dr. António Joaquim da Silva Lopes (1957-65), Dr. José Cândido Vaz (1965-66), João Fernandes Vieira (1966-71), Arlindo dos Santos Ribeiro e Silva (1981-99), Prof. Fernando Maria da Paz Duarte (1999-2010), Eng. João Manuel Pereira da Bela (2011-12), Álvaro Manuel da Rocha Ramos (2014-17) e Prof. Margarida São Marcos (2017-19) - , por entre os muitos obstáculos, souberam sempre melhorar qualidade dos serviços prestados (de saúde, de assistência às crianças e aos doentes terminais) e fazer da Santa Casa de Ílhavo ”lugar” de entre ajuda e de solidariedade a todos, indiscriminadamente, como diria o médico Louis Pasteur – “Não se pergunta a um infeliz: De que religião és tu? Diz-se-lhe: Tu sofres e isso é suficiente. Tu pertences-me e eu te aliviarei!”  

Sabemos que são muito parcos os recursos de uma instituição que atualmente emprega 143 funcionários, que quer fazer mais, e que sobrevive de protocolos de colaboração.

Através da História observa-se que a caridade exercida pelas Misericórdias é uma necessidade social. E sendo uma necessidade social é um alicerce da vida caritativa nacional.
A palavra Misericórdia tem este duplo sentido de ajudar, de dar proteção e o de perdoar e compreender. É esta a base e rumo de orientação desta instituição que, localmente, em cada concelho, atua para suprir as necessidades e carências sociais.

As Santas Casas, pelo testemunho das suas obras, pela sua exemplaridade, pela coragem, pela persistência, pela coesão institucional, contra a indiferença, a apatia e o inconformismo, e com o imperativo do rigor, continuarão a ser instituições fundamentais da sociedade portuguesa.

Hoje, recolhendo todos os elementos que nos falam da nossa Santa Casa de Ílhavo (brevemente publicados em livro), visto ter sido pouca a salvaguarda patrimonial e arquivística desta instituição, constatamos que só se consegue reconstruir a memória destes 100 anos recorrendo às noticias do jornal “O Ilhavense”.

Sem dinheiro não se faz o que a nossa vontade pretende, mas acreditamos que há sempre pessoas de bem que surgem na altura própria para colaborar.

Pelo jornal “O Ilhavense”, fio condutor da nossa memória, e pela Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, como assinantes ou como irmãos, saibamos acudir!

Hugo Cálão
Mestre em História e Património
10 de Abril de 2019

segunda-feira, 1 de abril de 2019

De Madrugada (Costa Nova)

I
Amanhã de madrugada, de madrugada,
Vai ter à beira do mar, de madrugada,
Nossa família é culpada, de madrugada,
Dos passos que vamos dar, de madrugada.

Ref:
Ai amor, amor, amor,
Amor, amor de madrugada

II
Oh mar alto, oh mar alto,
Oh mar alto sem ter fundo,
Mais vale andar no mar alto,
Do que nas bocas do mundo.

III
Oh Costa Nova do Prado,
Oh pedra do paredão,
Oh costa de São Jacinto,
Onde os meus amores estão.

IV
Oh Costa Nova do Prado,
Que és praia de singeleza,
Não há praia assim tão linda,
Nesta costa portuguesa.

V
Oh Senhora da Saúde,
A vossa capela cai,
Ajuntai as moças todas,
Tirai-lhe as telhas tirai.

VI
Oh Senhora da Saúde,
Mandai varrer as areias,
Que enchem os meus sapatos,
E eu estrago as minhas meias.

VII
Oh Senhora da Saúde, 
A vossa capela cheira,
Cheira a cravos, cheira a rosas,
E a flor  de laranjeira.

VIII
A Senhora da Saúde,
Tem uma maçã na mão,
Para dar a seu menino,
Quando ele vier da lição.

IX
Nossa Senhora faz meia,
Com linha feita de luz,
O novelo é lua cheia,
As meias são pra Jesus.

X
Comprei a vosso menino, 
Uma fitinha pro chapéu,
Ele também me há-de dar,
Um lugarzinho no Céu.
Olha a Gafanha

Nossa Gafanha tão linda,
De beleza infinda, graça de Jesus,
Tem coisas muito belas, tem muitas donzelas,
Resplandece de luz.

Ref:
Olha a Gafanha que bonita que ela é,
Vai brilhar desde o Carmo á Nazaré,
Encarnação essa é que mostra a prova,
Não há terra mais bonita de Aveiro, a Costa Nova!

Ai Gafanha, terra da minha paixão,
Ai Gafanha, vives no meu coração, 
Ai Gafanha, terra de encanto e beleza,
Ai Gafanha, linda aldeia portuguesa.




Senhora da Costa Nova

Senhora da Costa Nova,
Capelinha à beira mar,
Mandai-nos abrir a porta,
Para nela ir morar.

Lá vem o luar,
Por entre os pinhais,
Adeus meu amor,
Para nunca mais.

Esta é que era a moda, 
Que eu ouvi cantar,
Lá na Costa Nova olaré,
À beira do mar.

Costa Nova

Sou Costa Nova do Prado,
Praia de singeleza,
Não há praia assim tão bela,
Nesta praia portuguesa.

O sol, esse astro de luz,
Que a lua não branqueia,
O mar brilhante que me beija,
Linda paisagem de ria e maré cheia,
Aragem fresca que me bafeija.

Sou a Costa Nova do Prado,
Uma praia sem igual,
Com as belezas que tenho,
Não há outra em Portugal.